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27 abril 2014

Palhaço-mundo

No cárcere,
o homem em bandagens
à margem de si.


Paredes acolchoadas
à prova de golpes.
Da porta, vozes:
— Que sorte que estás aqui.

Caindo, caindo...
Caído na sombra.

No profundo abismo,
o homem encara o infinito.

Sozinho.

No vazio, a voz tão longe...
Mas ninguém responde.
Incômodo.

Às vezes, outros cospem:
— Louco!
E logo a camisa a estuprar.

O homem tenta os braços um pouco.
Força, sem movimento.
Primeiro o lamento,
mas logo o silêncio.


Da entrada, ouviu um dia:
— Ouça sua alma.
O homem riu irônico.
— Eu só tenho agonia.
— As sombras são sua companhia.


Noite. Catre inquieto.
Perto da dormência, o vislumbre do outro mundo.
Como desfazer o nó de si?
E sempre a muda pergunta:
— Por que estou aqui?


Além do além,
a alma não mais sufocada respirava.
Nas paragens de cinzas,
chamavam rostos irmãos:
— Venha junto na escuridão.




E então, o homem deixa cair a máscara de espinhos.
Mas sem sorriso.

Dois espíritos à sua frente olhavam,
uma boneca e um palhaço, rostos pintados:
— Que faz aqui, irmão?
— Procuro das almas o aberto salão.

A pequena, a sussurrar:
"Acaso está bêbado da vida?"
E o outro a gozar:
— És palhaço? Gosta de rir?



O homem recuou do cuspe no chão.
— Pra onde então ir?

Dos fantasmas, gargalhadas irônicas.
— Alma penada, olhe: o portal está ali.


O olhar a forçar, mas:
— Não vejo aberta a entrada.
— Provou o suficiente da ração dos viventes?
"Porque apenas ela é do portal o batente."

— Meu quinhão são sombras, somente.

— Não se faça de vítima.
"Não leu os versos do escuro?"

— Meu mundo é mudo.

"Você diz as palavras erradas."
— Agora chega! Marcha, e vai-te daqui!



Quando o homem distante:

"Lembra-te de antes, de um certo peregrino?"
— Sim. Também queria transpor o portal infinito.
Os guizos dos chapéus fizeram barulho naquele mundo tristonho.
E a boneca, num muxoxo:
"Dono meu, além daquela porta, lá fora a verdade persiste?"
E o palhaço se engasgou:
— Ora, ela nem mesmo existe!





25 abril 2014

Sonho estelar


A onda de choque puxou a mim, Herege, Rato e Buraco Negro pra fora.
Fora da nave, da vida, suspirei Verônica.
Sem ar — sonho estelar.

08 abril 2014

Sussurros #4


Madrigal

Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão.
Como o céu refletido
nas pupilas de um cão.

— José Paulo Paes