No cárcere,
o homem em bandagens
à margem de si.
Paredes acolchoadas
à prova de golpes.
Da porta, vozes:
— Que sorte que estás aqui.
Caindo, caindo...
Caído na sombra.
No profundo abismo,
o homem encara o infinito.
Sozinho.
No vazio, a voz tão longe...
Mas ninguém responde.
Incômodo.
Às vezes, outros cospem:
— Louco!
E logo a camisa a estuprar.
O homem tenta os braços um pouco.
Força, sem movimento.
Primeiro o lamento,
mas logo o silêncio.
†
Da entrada, ouviu um dia:
— Ouça sua alma.
O homem riu irônico.
— Eu só tenho agonia.
— As sombras são sua companhia.
†
Noite. Catre inquieto.
Perto da dormência, o vislumbre do outro mundo.
Como desfazer o nó de si?
E sempre a muda pergunta:
— Por que estou aqui?
†
Além do além,
a alma não mais sufocada respirava.
Nas paragens de cinzas,
chamavam rostos irmãos:
— Venha junto na escuridão.
E então, o homem deixa cair a máscara de espinhos.
Mas sem sorriso.
Dois espíritos à sua frente olhavam,
uma boneca e um palhaço, rostos pintados:
— Que faz aqui, irmão?
— Procuro das almas o aberto salão.
A pequena, a sussurrar:
"Acaso está bêbado da vida?"
E o outro a gozar:
— És palhaço? Gosta de rir?
O homem recuou do cuspe no chão.
— Pra onde então ir?
Dos fantasmas, gargalhadas irônicas.
— Alma penada, olhe: o portal está ali.
O olhar a forçar, mas:
— Não vejo aberta a entrada.
— Provou o suficiente da ração dos viventes?
"Porque apenas ela é do portal o batente."
— Meu quinhão são sombras, somente.
— Não se faça de vítima.
"Não leu os versos do escuro?"
— Meu mundo é mudo.
"Você diz as palavras erradas."
— Agora chega! Marcha, e vai-te daqui!
†
Quando o homem distante:
"Lembra-te de antes, de um certo peregrino?"
— Sim. Também queria transpor o portal infinito.
Os guizos dos chapéus fizeram barulho naquele mundo tristonho.
E a boneca, num muxoxo:
"Dono meu, além daquela porta, lá fora a verdade persiste?"
E o palhaço se engasgou:
— Ora, ela nem mesmo existe!
†










