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30 janeiro 2014

Sussurros #2


ÍTACA (Cavafy — 1911)

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado — não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho
se o teu pensar for puro,
e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros montros,
Poseidon em fúria — nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colônias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérolas, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras,
Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

(Tradução portuguesa de Jorge de Sena)

29 janeiro 2014

A lua, com ciúmes, chama as nuvens a pousarem sobre as estrelas.
No entanto, elas lá estão...

— Lady Star


26 janeiro 2014

Fata-Morgana, das almas o prazer — parte 1


O sino dobra o fim da tarde.

O sol morre, trazendo escuro.

Agora e sempre, o errante via espíritos a lhe sussurrar, nunca distante:

Não seja surdo para os sons do mundo.

Almas-sombras, seu sorriso um murmúrio.

Arrepio sob o capuz, o peregrino dói a mente, inquieto:

— Muito barulho, muito mundo, muita ilusão, muito ego!

Tolo! No papiro do universo, cada estrela escreve seu verso.

Cada qual com sua sede: nomes, mitologias, verdades, saudades.

— Feitos, desejos, destinos, caprichos.

O infinito dos caminhos, peregrino sem nome.

Ao olhar para o céu, exultou:

— Quando o dia morre, é a hora da poesia. As estrelas trarão a visita da musa. Antigos trovadores beberam de seu hálito.

Não há dores em tal hábito. Pode você sentir o vento?

— A noite da alma, a falsa calma. Não há lágrimas a secar.

O contento das almas não trazia do conforto o estado.

O peregrino novamente com vontade de voar, sentado.

A noite brilhava estrelas.

Sentimento de fardo para si, para o redor.

Tão só...


Ao redor, as almas continuavam a dançar.

— Eu ainda os ouço, espíritos, a sussurrar sombras em meu caminho.

Nós somos a névoa, peregrino. Nos umbrais da vida, deslizamos.

Assistimos, nos viventes, sorrisos forçados. Palhaços de si.



— Vocês têm a visão ofuscada pelo medo, raiva, ódio. Há apenas a realidade do que somos.

Cavalos com antolhos de suas próprias verdades.

E, quando da passagem, saudade. Sonhos na sombra.

Sorrisos invisíveis.

Choros sem lágrimas.

— Onde o fruto da árvore?

O seu deus morreu e ninguém se importa!

Apenas memórias...

Sem estreita porta, sem glória.

A fúria incapaz de obter paz.

Auto-cobranças sem nexo.

Vontade de sexo com o destino, até surgir o nada.

A fogueira a crepitar. O peregrino dividiu o silêncio de sepulcro.

De repente, um som doce surgiu:

"Alguém me chamou?"

E não era um murmúrio.

O peregrino arregalou o olhar:

— Fata-Morgana, do destino a fada. Senhora do prazer da alma.





08 janeiro 2014

O cachorro e a raposa — final

Acompanhe a parte 1 e a parte 2.



Nos campos,
a raposa ouvia
o silêncio do dia.

Ela tremia não
para o vento,
pois apertava o vazio
de dentro.

Sozinha.

Focinho cheirando
o tronco oco.
Sombra, insetos,
ninguém por perto.

Sozinha...

O sol refletia
em sua pelagem.
Perguntava-se:
— Qual a cor da solidão?

Não a do arco-íris.
Não o brilho dos olhos
que a encontravam.

Batia sensível o peito,
mas, como sempre,
sozinha.

Embora,
à sua volta,
a paisagem cheia
de cor e flor,
sentia dor.

Pétalas balançavam
quando corria de
outros de patas:
— O que querem de mim?

Às vezes, era alcançada,
momentos dividia.
Mas, sentia-se
sempre à parte...

Afetava,
sem se afetar.

À tarde, que
palavras passavam
pelo seu olhar?


Enxergava a flor
desabrochar, mas não
voava sorrisos.

Onde o infinito?

Quando o dia a findar,
era folha flutuando
na corrente.

Sozinha, somente,
sob o murmúrio
do riacho.

Cada sono era
o não-acordar:
torpor de si.



Chuva.
O brilho do amanhacer
no lago plácido.

A raposa saboreava
o vento.
Foi nesse momento
que decidiu o rio.


Lá, quando a matilha
veio, longe do veio,
a raposa viu, escondido,
um par de olhos tristes.

Olhos cor de cachorro.
Tímidos, eles brilharam.
E sumiram.

Mesmo distante,
a árvore era floresta.

E, diante das
águas em festa,
a raposa teve que,
mais uma vez, correr.


— Mas a raposa
nunca mais o viu?
quis um filhote saber.


— Claro que sim, pequeno.
Deixe-me continuar...



Outras vezes
aqueles olhos ela viu.
Forçou, testou, tentou.
Mas eles sempre fugiam...

Depois dos olhos a brilhar,
viu bigodes se agitando,
latidos que não rugiam.

Viu a noção do movimento,
a inércia da ousadia.

Os dias e as estações a caminhar.
Folhas mudando de cor,
amarelo-perto do frio.

Logo, manteve-se perto,
mas sem tentar,
pois lá ia o cão
num abrigo se enfiar.

A raposa gostava
de estar junto,
mas junto
nunca estava.

(E o cão não sabia.)

Sozinha ou correndo, longe
rodeava, olhando o cão
a brincar e andar e correr.

Mas não podia a matilha!
Não pertencia...

E então voltava, por si,
a seus campos altos e passarinhos.


(sem saber que,
o cachorro, em silêncio,
a abraçava e a amava...)


Da colina, a raposa
passeava o olhar
sobre o campo.

Pêlos ao vento,
ondulando como
a palha dourada.

Só havia uma cor, mas
— Qual a cor da saudade?


Vontade de brincar no trigo.
Desceu, correu, afundou.

E lá, encontrou
o cachorro, escondido.

Sozinho.


Naquele momento,
faíscas do infinito.

Ao tocar mansinho
de focinhos, a verdade
dos olhos.


Porque assim,
perto, de pertinho,
refletiam-se com vontade...

O céu brilhava azul-saudade.