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26 janeiro 2014

Fata-Morgana, das almas o prazer — parte 1


O sino dobra o fim da tarde.

O sol morre, trazendo escuro.

Agora e sempre, o errante via espíritos a lhe sussurrar, nunca distante:

Não seja surdo para os sons do mundo.

Almas-sombras, seu sorriso um murmúrio.

Arrepio sob o capuz, o peregrino dói a mente, inquieto:

— Muito barulho, muito mundo, muita ilusão, muito ego!

Tolo! No papiro do universo, cada estrela escreve seu verso.

Cada qual com sua sede: nomes, mitologias, verdades, saudades.

— Feitos, desejos, destinos, caprichos.

O infinito dos caminhos, peregrino sem nome.

Ao olhar para o céu, exultou:

— Quando o dia morre, é a hora da poesia. As estrelas trarão a visita da musa. Antigos trovadores beberam de seu hálito.

Não há dores em tal hábito. Pode você sentir o vento?

— A noite da alma, a falsa calma. Não há lágrimas a secar.

O contento das almas não trazia do conforto o estado.

O peregrino novamente com vontade de voar, sentado.

A noite brilhava estrelas.

Sentimento de fardo para si, para o redor.

Tão só...


Ao redor, as almas continuavam a dançar.

— Eu ainda os ouço, espíritos, a sussurrar sombras em meu caminho.

Nós somos a névoa, peregrino. Nos umbrais da vida, deslizamos.

Assistimos, nos viventes, sorrisos forçados. Palhaços de si.



— Vocês têm a visão ofuscada pelo medo, raiva, ódio. Há apenas a realidade do que somos.

Cavalos com antolhos de suas próprias verdades.

E, quando da passagem, saudade. Sonhos na sombra.

Sorrisos invisíveis.

Choros sem lágrimas.

— Onde o fruto da árvore?

O seu deus morreu e ninguém se importa!

Apenas memórias...

Sem estreita porta, sem glória.

A fúria incapaz de obter paz.

Auto-cobranças sem nexo.

Vontade de sexo com o destino, até surgir o nada.

A fogueira a crepitar. O peregrino dividiu o silêncio de sepulcro.

De repente, um som doce surgiu:

"Alguém me chamou?"

E não era um murmúrio.

O peregrino arregalou o olhar:

— Fata-Morgana, do destino a fada. Senhora do prazer da alma.





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