O peregrino,
há muito em espírito,
perdera do corpo
o caminho.
Caído capuz,
contemplava as
terras sem luz.
Longo suspiro —
sob o frio
do vento,
sentia-se parte.
(Dentro de si,
do mundo à parte.)
De repente,
um toque de cor,
porque ali, logo adiante,
erguia-se uma flor.
Contemplando-a,
enlevo:
— Ora, como veio
parar aqui?
O peregrino,
em sorriso,
quis tê-la
para si.
No entanto,
ao tocá-la,
dos espinhos
a resposta:
"Peregrino,
solta!"
"Com que direito
vens nos arrancar
com teu ego?"
"Não sejas cego!
Toma teu caminho.
Estas pétalas não
são para ti."
("Volta!")
†
Longe dali,
cálido sentir
de esperança
desfeita.
No entanto, certa feita,
entendeu o caminhante:
— Da alma infante,
deixe que o vento uivante
lapide o diamante.
E então, não mais
o tormento de:
"há quanto
abandonado?"
Em verdade, solitário
caminhava, calado.
(Abaixo do mundo,
era apenas mais um.)
†
Um respirar
molhado.
Súbito, um raio.
O trovão, como bálsamo,
iluminava a via.
Nos ermos esquecidos,
o peregrino,
qual alma perdida,
ergue adiante o olhar.
(Em busca da vida...)
E então, grata surpresa.
Uma gárgula desafiava
as eras, alta, sobranceira,
sob o beiral de —
— Uma igreja...
— Diga-me, guardião do tempo:
qual divindade
abriga tal templo?
A estátua:
"Descubra por si mesmo,
que apenas vigio
o tempo agourento."
Sacudindo a capa,
adentra o caminhante,
buscando abrigo
da própria alma.
†
O templo vazio.
Sem preces,
sem almas.
— Nada...
Bancos perfilavam-se,
à espera de
esquecida plateia.
— Que importam as deidades?
Aqui jaz apenas
silêncio e saudade.
Pensamentos esquecidos.
(Preces mortas,
somente?)
E então o peregrino
quis buscar um canto,
descansar.
Foi quando percebeu —
havia alma lá.
Tão tímido,
o caminhante
deteve o olhar.
Queria contemplá-la.
(Porque — espanto! —
surgiram asas,
e logo sumiram.)
Sozinha,
mantinha
calmo e terno
silêncio.
Tomou tento
o peregrino,
chegou-lhe ao lado.
A voz saiu
sem jeito:
— Veio buscar sacramento?
Ela então se virou.
A resposta de seu olhar
parou-lhe o peito.
Mago do destino,
procuro do mundo
o silêncio,
eram suas palavras,
em pensamento.
Além do tempo,
o peregrino suspirava.
Vazia mente,
calor de estrela nascente.
E tu?
Busca a névoa,
somente?
(Queria fazê-la frágil.
Ao lado, contemplar
as luzes do céu.)
(Voar...)
O caminhante
não sabia o que dizer.
— Estrela cadente...,
murmurou o peregrino.
Todavia,
mesmo sem asas,
sorriu.
Porque,
ao senti-la
a presença, o olhar,
alegria.
(Palavras fazem diferença?)
Não havia
deuses mortos
ou artes profanas.
E o dia logo nasceria.
Como a adivinhar
seu mundo íntimo:
Peregrino, o labor
da imortalidade...
é a compreensão
profunda do amor.
†