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17 novembro 2015

A mordida da vampira



Ao sentir da mordida,
a esperança da vida
se esvaía...

O homem jazia
entre o respirar
e o não.

No findar
do sussurro,
a vampira:

— Seus sonhos,
desejos, anseios,
quedam-se em ruínas.

(Onde a luz então?)

Com o receber do sangue:
— Homem, erga-se
do chão.


— Olhe a lua...
Ela não é linda?


Embevecida,
a vampira
vermelho-sorria.

— Sangue...
O apanágio
da humanidade.

O vampiro
em silêncio.

(Saudades
de um coração
que não bate?)

— Venha, que
mostrarei a
escuridão.


O mundo em
tons negros.




— Alma em degredo,
ouça os sussurros.

O vampiro fechou os olhos...
(Os anjos estão mortos.)

O altar vazio.

— Que o frio da pele
doe a sensação leve,
antes do beijo.

Lábios que
sorvem a vida,
o que seria.

(Vãs desejos...)

(Esperanças tépidas...)

— Querido,
no caminho das eras,
abrace a noite.


Mais uma vez,
a lua por companhia.

— Amante do sangue,
nada será como antes.

— Agora, solitário
deve ser 
seu caminhar.

(O pálido luminar
sem reflexo
nos olhos sem brilho.)




O vampiro, estranho
peregrino.

No infinito
dos crepúsculos,
nunca a luz do dia.

Herdeiro da agonia,
homem forte do abismo.

No sem-fim das trevas,
além das lágrimas, viver.

Imortal ser,
vencer a própria morte.

(A sorte do tolo?)



Enquanto dorme
o mundo, o vampiro
sorve o profundo de si —

Soturno, calado.
Ninguém ao lado.

(Nosferatu?)

O réquiem
do Umbral.

(Eu sou o mal?)

A morte, tal qual.

(Não!)

No fim,
a vida nas mãos.




Assassino, o peso
das almas no abismo.

Caveiras nas estrelas.

(Onde a luz de cometa no coração?)


Ao longe, um peregrino
observava o vampiro.


O homem de capuz
ergueu o olhar
ao céu castanho-universo.

Um suspiro:

"Ah, vampiro...
Além da luz do dia,
a maior poesia
vem do Amor."

"Não estão sós aqueles que amam."




27 setembro 2015

A sombra de Lilith



Apreciava o peregrino
o silêncio da solidão.
Pela escuridão deslizava,
espectro de si.

Calmo para a dor
que sussurrava em sua via,
há muito tempo distante
da luz do dia.


Guardava o errante
a memória distante,
de quando a alma
sorria sem jeito.

E então, logo veio
o peito a suspirar —
pois, sob a vista,
céu sem estrelas...

(Luz de cometa no coração?)

Nas sombras da noite,
pensamentos insones.
Errava o peregrino,
tal qual esquecido Caronte.


Olhos fechados.
Um respirar profundo.

Veio o sussurro:
Aquiete-se o coração,
deixe-o mudo.

De galhos o estalar.

— Quem vem, nas sombras
a deslizar?

Sou Lilith...


— Senhora dos demônios.

Mãe da Lua.

— Dama da alma nua.

E caminhante do abismo.

— Sou apenas um peregrino.

Quis o destino ter contigo.

— Ainda não sou um vivo imortal.

Que mal importa?

— Não. Não é minha hora,
que acabo de voltar do abismo,
novamente.

Venha comigo, tão somente, corvo da noite.

E então, nas sombras
uma vez mais penetraram,
o demônio e o vivente.


Feche os olhos.

Mas ele não queria o entregar de si.
Porque ali, a alma,
ao contemplá-la,
brilhava diferente.

O que você sente?

Poesia sem palavras.
"Apenas quero beijá-la." — pensou.


Peregrino,
nunca se esqueça do Amor.

Calou-se com a resposta.

Veja, no limite do Umbral,
o portal do infinito.

— Certa vez, tive interdita
a entrada.

Ela sorriu.
Ora, caminhante...
Ainda não entendeu da chave
o mistério?

Venha, que estamos
chegando perto.


Em todos os entroncamentos
do Universo, guardavam
sentinelas.


Naquele portal, como poderia
ser diferente?

Assim Lilith aproximou-se
do guardião, a guisa de
permissão.

Do soldado,
emanava o poder interior
daqueles além da dor.

Disse o guardião:
"Que isto seja ouvido!
A verdadeira força vem do Amor."


O sino dobra
para este peregrino.
Chegou-lhe a hora
de conhecer além.

O homem olha
sem desdém.

"Pagou do abismo
o preço?"

Por longo tempo,
o peregrino
manteve silêncio.

— Eu caminhei
pela realidade.
Doí o peito
de saudades.

— Explorei a verdade
do coração.

— Pelas vidas, suspirei.
Sombra e luz.

— À procura da imortalidade,
espírito sem época.
Das sombras a epopéia.

— O cair das máscaras,
a morte do ego.
(mais perto do Universo?)

— Andarilho sem nome...
Sob os passos,
pedaços da alma,
choro sem lágrimas.

— Sonhos desfeitos...
A realidade em tons
cinzas, negros.


...

— É com tais tintas,
que pincelo
a luz do dia.

— Telas de sangue e dor.
E logo o calor
ao descobrir
que a escuridão está ali
a realçar a beleza da luz.

— Ah, e quão doce então
a saudade que conduz
a vontade do coração...

— Eu deslizo pelo mundo
fantasma das ilusões,
qual sombra,
mas sentindo a espiral eterna do Amor.


— Longo caminhar,
a descobrir o sopro
terno da Criação.

"Alcançaste tua compreensão."

Lilith pegou-lhe
delicada a mão.

Abra os olhos,
caçador do ego.
Não estejas mais cego:
venha volitar no além do
Universo.

O guardião
flanqueou a passagem.

Além do portal, brilhava a realidade.

Peregrino, por que a saudade?
Não vês que a paisagem do outro lado
é semelhante, qual espelho?

Ele sorriu com enlevo.

— Sim, há a saudade quieta,
dor suave e indefinível.

— Mas, no fim,
a cada timidez do descobrir,
a cada sorriso,
a cada toque de olhar,
do infinito o vislumbre,
no caminho das eras.

— A cada sentir da presença,
alegria
(palavras fazem diferença?)





Delicada e reverentemente,
silente do espaço ou tempo,
o coração da alma respirava.

Porque nunca haveria o nada.


Peregrinar
pelas vidas do Universo...
Eternidade.



10 junho 2015

Tribulation — Strange gateways beckon


O vale esquecido

Depois do bardo,
o silêncio da canção.

E logo então,
soprou o vento,
soprou o tempo...



Farfalhar no manto,
buscava o errante
o sentido distante.

Agora e sempre,
guardava silêncio.

Observava, compreendia —
meditava conhecimento,
intuía sabedoria.

Porque, no profundo caminhar,
a visão da alma.



No entanto,
tanto tempo
errando no escuro,
negro-éter mudo;

Apenas os passos e silêncio
por companhia...
Logo, sem perceber,
das sombras era vida.

— Onde o calor do dia?

Todavia,
o errante fechou os olhos.
Um respirar suave
flutuou a imagem:



— Saudades.

Paisagens a contemplar,
mas qual viajar traria
da compreensão o olhar?

Um profundo respirar
suspirou o coração.

(O jeito que olha,
o jeito que tenta não olhar.)

— Queria estar lá.

No céu, as estrelas a voar.


Ainda não entendia.
Através das sombras,
apenas via.

Era poesia,
tão somente.

Novamente
em versos perdido.
Sempre o infinito
do peito...

De si o desterro.
Desespero?

Além da dor,
seus atos apenas
sussurros.

Acólito das cinzas,
morto para o mundo.
Quis fechar feridas,
aplacar tumulto.

Procurou do sono
o túmulo.


Pensou o peregrino:

"Este é o vale esquecido?
A dimensão paralela,
onde as eras não sopram?"

Ainda mudo, porém,
quis olhar além,
sentir tal mundo.

Sutil, o riacho murmurava.
A relva perfumava
os passos. Pelos lados,
beleza discreta.


— Noite eterna...
A linha de sombra
delicada
no horizonte.

— Estrelas... flores da noite.
Luzes distantes...

(a alma em tormento)

— Ah, e como almejo
desenhá-la em versos meigos,
possui-la em mil desejos.
Sentir-se junto, em sossego.

Porém, naquele momento,
o peregrino sentiu,
sob a visão do luar...

Que, mesmo distante,
os astros orbitam-se
constantes,
a espantar o
vazio estelar.


E então, doce e triste
compreensão:

— Ainda sou escuridão.
...
Ele e as sombras um...


(Mas, no fim, sombra não havia,
porque, ao sentir, olhar, ouvir
da estrela o calor,
era a luz do dia.)