10 agosto 2016
15 julho 2016
03 julho 2016
A flor da esperança
O peregrino,
há muito em espírito,
perdera do corpo
o caminho.
Caído capuz,
contemplava as
terras sem luz.
Longo suspiro —
sob o frio
do vento,
sentia-se parte.
(Dentro de si,
do mundo à parte.)
De repente,
um toque de cor,
porque ali, logo adiante,
erguia-se uma flor.
Contemplando-a,
enlevo:
— Ora, como veio
parar aqui?
O peregrino,
em sorriso,
quis tê-la
para si.
No entanto,
ao tocá-la,
dos espinhos
a resposta:
"Peregrino,
solta!"
"Com que direito
vens nos arrancar
com teu ego?"
"Não sejas cego!
Toma teu caminho.
Estas pétalas não
são para ti."
("Volta!")
†
Longe dali,
cálido sentir
de esperança
desfeita.
No entanto, certa feita,
entendeu o caminhante:
— Da alma infante,
deixe que o vento uivante
lapide o diamante.
E então, não mais
o tormento de:
"há quanto
abandonado?"
Em verdade, solitário
caminhava, calado.
(Abaixo do mundo,
era apenas mais um.)
†
Um respirar
molhado.
Súbito, um raio.
O trovão, como bálsamo,
iluminava a via.
Nos ermos esquecidos,
o peregrino,
qual alma perdida,
ergue adiante o olhar.
(Em busca da vida...)
E então, grata surpresa.
Uma gárgula desafiava
as eras, alta, sobranceira,
sob o beiral de —
— Uma igreja...
— Diga-me, guardião do tempo:
qual divindade
abriga tal templo?
A estátua:
"Descubra por si mesmo,
que apenas vigio
o tempo agourento."
Sacudindo a capa,
adentra o caminhante,
buscando abrigo
da própria alma.
†
O templo vazio.
Sem preces,
sem almas.
— Nada...
Bancos perfilavam-se,
à espera de
esquecida plateia.
— Que importam as deidades?
Aqui jaz apenas
silêncio e saudade.
Pensamentos esquecidos.
(Preces mortas,
somente?)
E então o peregrino
quis buscar um canto,
descansar.
Foi quando percebeu —
havia alma lá.
Tão tímido,
o caminhante
deteve o olhar.
Queria contemplá-la.
(Porque — espanto! —
surgiram asas,
e logo sumiram.)
Sozinha,
mantinha
calmo e terno
silêncio.
Tomou tento
o peregrino,
chegou-lhe ao lado.
A voz saiu
sem jeito:
— Veio buscar sacramento?
Ela então se virou.
A resposta de seu olhar
parou-lhe o peito.
Mago do destino,
procuro do mundo
o silêncio,
eram suas palavras,
em pensamento.
Além do tempo,
o peregrino suspirava.
Vazia mente,
calor de estrela nascente.
E tu?
Busca a névoa,
somente?
(Queria fazê-la frágil.
Ao lado, contemplar
as luzes do céu.)
(Voar...)
O caminhante
não sabia o que dizer.
— Estrela cadente...,
murmurou o peregrino.
Todavia,
mesmo sem asas,
sorriu.
Porque,
ao senti-la
a presença, o olhar,
alegria.
(Palavras fazem diferença?)
Não havia
deuses mortos
ou artes profanas.
E o dia logo nasceria.
Como a adivinhar
seu mundo íntimo:
Peregrino, o labor
da imortalidade...
é a compreensão
profunda do amor.
†
23 junho 2016
04 abril 2016
"E vi que a magia que eu procurava não era qualquer coisa abstrata e etérea pra ser apanhada e largada quando me desse vontade.
Vi que é a energia real das emoções e da vida que circula dentro e fora de nós... que está em nossos corações e mentes.
Vi que o inferno está em toda parte.
E o diabo está bem do nosso lado".
— John Constantine
06 março 2016
Amanhecer
Na hora mais escura,
caminhava o peregrino,
alma nua
para o próprio abismo.
Sozinho,
sob o céu sem lua.
Errante do destino,
à procura, à procura...
Escuros passos...
Apenas sentindo
a própria respiração.
O silêncio calmo...
(Onde os demônios
por companhia?)
E então,
o caminhante suspira,
mas não pela
luz do dia.
— Guia-me os passos,
que procuro
o seu brilhar,
estrela-Astréia.
No entanto,
agora e sempre,
somente a névoa.
— Porque há muito
amo a escuridão.
†
Nos campos do Umbral,
a beleza das eras em
visões decaídas.
Vazias ermidas,
a vida refletida
no pesar.
Logo, no descampado
daquele além,
sentava-se
outro alguém.
Olhos fechados para o entorno.
Rosto calmo, absorto.
Pernas em lótus,
mãos juntas.
Ele não era de luta —
Meditava.
O peregrino:
— Ancião alquebrado,
porque sentado
procura o sentido
deste infinito de dor?
Sem se mover:
"Ora, errante, tu és ainda
um dos que sofrem
pelo antes?
Não vês
que o sol
já vai nascer?"
— Eu não anseio pela luz.
"Qual então o sentimento
que te conduz?"
Silêncio.
"Oh, peregrino do universo.
O caminho está aberto."
Como um tesouro,
sussurrou o andarilho:
— O Amor...
"... é força em movimento."
— É o vento sobre a flor.
"Estar além da dor."
— É o luar refletido no olhar.
"O canto silencioso da alma."
— É a paz, a calma.
O senhor sorriu.
"Por ora,
nada mais tenho a dizer."
O peregrino ajeitou o capuz
e, sem esperar pela luz,
simplesmente caminhou.
†
A noite mais serena,
a alma plena da verdade.
— Deixe-me sorrir
em saudades,
não mais em dor.
E então, súbito,
leve brisa a acariciar
o coração.
Um toque delicado
pousando no ombro.
Alguém ao lado.
Sorriso profundo de enternecer...
O peregrino olhava-a
como um belo amanhecer
após a longa noite da alma.
†
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