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03 julho 2016

A flor da esperança



O peregrino,
há muito em espírito,
perdera do corpo
o caminho.

Caído capuz,
contemplava as
terras sem luz.

Longo suspiro —
sob o frio
do vento,
sentia-se parte.

(Dentro de si,
do mundo à parte.)

De repente,
um toque de cor,
porque ali, logo adiante,
erguia-se uma flor.


Contemplando-a,
enlevo:

— Ora, como veio
parar aqui?

O peregrino,
em sorriso,
quis tê-la
para si.

No entanto,
ao tocá-la,
dos espinhos
a resposta:

"Peregrino,
solta!"

"Com que direito
vens nos arrancar
com teu ego?"

"Não sejas cego!
Toma teu caminho.
Estas pétalas não
são para ti."

("Volta!")


Longe dali,
cálido sentir
de esperança
desfeita.

No entanto, certa feita,
entendeu o caminhante:

— Da alma infante,
deixe que o vento uivante
lapide o diamante.

E então, não mais
o tormento de:
"há quanto
abandonado?"

Em verdade, solitário
caminhava, calado.

(Abaixo do mundo,
era apenas mais um.)


Um respirar
molhado.
Súbito, um raio.

O trovão, como bálsamo,
iluminava a via.

Nos ermos esquecidos,
o peregrino,
qual alma perdida,
ergue adiante o olhar.

(Em busca da vida...)

E então, grata surpresa.
Uma gárgula desafiava
as eras, alta, sobranceira,
sob o beiral de —

— Uma igreja...



— Diga-me, guardião do tempo:
qual divindade
abriga tal templo?

A estátua:

"Descubra por si mesmo,
que apenas vigio
o tempo agourento."

Sacudindo a capa,
adentra o caminhante,
buscando abrigo
da própria alma.


O templo vazio.
Sem preces,
sem almas.

— Nada...


Bancos perfilavam-se,
à espera de
esquecida plateia.

— Que importam as deidades?
Aqui jaz apenas
silêncio e saudade.
Pensamentos esquecidos.

(Preces mortas,
somente?)

E então o peregrino
quis buscar um canto,
descansar.

Foi quando percebeu —
havia alma lá.

Tão tímido,
o caminhante
deteve o olhar.
Queria contemplá-la.

(Porque — espanto! —
surgiram asas,
e logo sumiram.)

Sozinha,
mantinha
calmo e terno
silêncio.


Tomou tento
o peregrino,
chegou-lhe ao lado.

A voz saiu
sem jeito:

— Veio buscar sacramento?

Ela então se virou.
A resposta de seu olhar
parou-lhe o peito.

Mago do destino,
procuro do mundo
o silêncio,
eram suas palavras,
em pensamento.

Além do tempo,
o peregrino suspirava.
Vazia mente,
calor de estrela nascente.

E tu?
Busca a névoa,
somente?

(Queria fazê-la frágil.
Ao lado, contemplar
as luzes do céu.)

(Voar...)

O caminhante
não sabia o que dizer.

— Estrela cadente...,
murmurou o peregrino.

Todavia,
mesmo sem asas,
sorriu.

Porque,
ao senti-la
a presença, o olhar,
alegria.

(Palavras fazem diferença?)

Não havia
deuses mortos
ou artes profanas.

E o dia logo nasceria.

Como a adivinhar
seu mundo íntimo:

Peregrino, o labor
da imortalidade...
é a compreensão
profunda do amor.




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