Na hora mais escura,
caminhava o peregrino,
alma nua
para o próprio abismo.
Sozinho,
sob o céu sem lua.
Errante do destino,
à procura, à procura...
Escuros passos...
Apenas sentindo
a própria respiração.
O silêncio calmo...
(Onde os demônios
por companhia?)
E então,
o caminhante suspira,
mas não pela
luz do dia.
— Guia-me os passos,
que procuro
o seu brilhar,
estrela-Astréia.
No entanto,
agora e sempre,
somente a névoa.
— Porque há muito
amo a escuridão.
†
Nos campos do Umbral,
a beleza das eras em
visões decaídas.
Vazias ermidas,
a vida refletida
no pesar.
Logo, no descampado
daquele além,
sentava-se
outro alguém.
Olhos fechados para o entorno.
Rosto calmo, absorto.
Pernas em lótus,
mãos juntas.
Ele não era de luta —
Meditava.
O peregrino:
— Ancião alquebrado,
porque sentado
procura o sentido
deste infinito de dor?
Sem se mover:
"Ora, errante, tu és ainda
um dos que sofrem
pelo antes?
Não vês
que o sol
já vai nascer?"
— Eu não anseio pela luz.
"Qual então o sentimento
que te conduz?"
Silêncio.
"Oh, peregrino do universo.
O caminho está aberto."
Como um tesouro,
sussurrou o andarilho:
— O Amor...
"... é força em movimento."
— É o vento sobre a flor.
"Estar além da dor."
— É o luar refletido no olhar.
"O canto silencioso da alma."
— É a paz, a calma.
O senhor sorriu.
"Por ora,
nada mais tenho a dizer."
O peregrino ajeitou o capuz
e, sem esperar pela luz,
simplesmente caminhou.
†
A noite mais serena,
a alma plena da verdade.
— Deixe-me sorrir
em saudades,
não mais em dor.
E então, súbito,
leve brisa a acariciar
o coração.
Um toque delicado
pousando no ombro.
Alguém ao lado.
Sorriso profundo de enternecer...
O peregrino olhava-a
como um belo amanhecer
após a longa noite da alma.
†





