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06 março 2016

Amanhecer



Na hora mais escura,
caminhava o peregrino,
alma nua
para o próprio abismo.

Sozinho,
sob o céu sem lua.
Errante do destino,
à procura, à procura...

Escuros passos...
Apenas sentindo
a própria respiração.
O silêncio calmo...

(Onde os demônios
por companhia?)


E então,
o caminhante suspira,
mas não pela
luz do dia.

— Guia-me os passos,
que procuro
o seu brilhar,
estrela-Astréia.

No entanto,
agora e sempre,
somente a névoa.

— Porque há muito
amo a escuridão.


Nos campos do Umbral,
a beleza das eras em
visões decaídas.

Vazias ermidas,
a vida refletida
no pesar.


Logo, no descampado
daquele além,
sentava-se
outro alguém.

Olhos fechados para o entorno.
Rosto calmo, absorto.
Pernas em lótus,
mãos juntas.

Ele não era de luta —
Meditava.


O peregrino:

— Ancião alquebrado,
porque sentado
procura o sentido
deste infinito de dor?

Sem se mover:

"Ora, errante, tu és ainda
um dos que sofrem
pelo antes?

Não vês
que o sol
já vai nascer?"

— Eu não anseio pela luz.

"Qual então o sentimento
que te conduz?"

Silêncio.

"Oh, peregrino do universo.
O caminho está aberto."

Como um tesouro,
sussurrou o andarilho:

— O Amor...

"... é força em movimento."

— É o vento sobre a flor.

"Estar além da dor."

— É o luar refletido no olhar.

"O canto silencioso da alma."

— É a paz, a calma.

O senhor sorriu.

"Por ora,
nada mais tenho a dizer."


O peregrino ajeitou o capuz
e, sem esperar pela luz,
simplesmente caminhou.


A noite mais serena,
a alma plena da verdade.

— Deixe-me sorrir
em saudades,
não mais em dor.

E então, súbito,
leve brisa a acariciar
o coração.

Um toque delicado
pousando no ombro.
Alguém ao lado.


Sorriso profundo de enternecer...

O peregrino olhava-a
como um belo amanhecer
após a longa noite da alma.