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27 setembro 2015

A sombra de Lilith



Apreciava o peregrino
o silêncio da solidão.
Pela escuridão deslizava,
espectro de si.

Calmo para a dor
que sussurrava em sua via,
há muito tempo distante
da luz do dia.


Guardava o errante
a memória distante,
de quando a alma
sorria sem jeito.

E então, logo veio
o peito a suspirar —
pois, sob a vista,
céu sem estrelas...

(Luz de cometa no coração?)

Nas sombras da noite,
pensamentos insones.
Errava o peregrino,
tal qual esquecido Caronte.


Olhos fechados.
Um respirar profundo.

Veio o sussurro:
Aquiete-se o coração,
deixe-o mudo.

De galhos o estalar.

— Quem vem, nas sombras
a deslizar?

Sou Lilith...


— Senhora dos demônios.

Mãe da Lua.

— Dama da alma nua.

E caminhante do abismo.

— Sou apenas um peregrino.

Quis o destino ter contigo.

— Ainda não sou um vivo imortal.

Que mal importa?

— Não. Não é minha hora,
que acabo de voltar do abismo,
novamente.

Venha comigo, tão somente, corvo da noite.

E então, nas sombras
uma vez mais penetraram,
o demônio e o vivente.


Feche os olhos.

Mas ele não queria o entregar de si.
Porque ali, a alma,
ao contemplá-la,
brilhava diferente.

O que você sente?

Poesia sem palavras.
"Apenas quero beijá-la." — pensou.


Peregrino,
nunca se esqueça do Amor.

Calou-se com a resposta.

Veja, no limite do Umbral,
o portal do infinito.

— Certa vez, tive interdita
a entrada.

Ela sorriu.
Ora, caminhante...
Ainda não entendeu da chave
o mistério?

Venha, que estamos
chegando perto.


Em todos os entroncamentos
do Universo, guardavam
sentinelas.


Naquele portal, como poderia
ser diferente?

Assim Lilith aproximou-se
do guardião, a guisa de
permissão.

Do soldado,
emanava o poder interior
daqueles além da dor.

Disse o guardião:
"Que isto seja ouvido!
A verdadeira força vem do Amor."


O sino dobra
para este peregrino.
Chegou-lhe a hora
de conhecer além.

O homem olha
sem desdém.

"Pagou do abismo
o preço?"

Por longo tempo,
o peregrino
manteve silêncio.

— Eu caminhei
pela realidade.
Doí o peito
de saudades.

— Explorei a verdade
do coração.

— Pelas vidas, suspirei.
Sombra e luz.

— À procura da imortalidade,
espírito sem época.
Das sombras a epopéia.

— O cair das máscaras,
a morte do ego.
(mais perto do Universo?)

— Andarilho sem nome...
Sob os passos,
pedaços da alma,
choro sem lágrimas.

— Sonhos desfeitos...
A realidade em tons
cinzas, negros.


...

— É com tais tintas,
que pincelo
a luz do dia.

— Telas de sangue e dor.
E logo o calor
ao descobrir
que a escuridão está ali
a realçar a beleza da luz.

— Ah, e quão doce então
a saudade que conduz
a vontade do coração...

— Eu deslizo pelo mundo
fantasma das ilusões,
qual sombra,
mas sentindo a espiral eterna do Amor.


— Longo caminhar,
a descobrir o sopro
terno da Criação.

"Alcançaste tua compreensão."

Lilith pegou-lhe
delicada a mão.

Abra os olhos,
caçador do ego.
Não estejas mais cego:
venha volitar no além do
Universo.

O guardião
flanqueou a passagem.

Além do portal, brilhava a realidade.

Peregrino, por que a saudade?
Não vês que a paisagem do outro lado
é semelhante, qual espelho?

Ele sorriu com enlevo.

— Sim, há a saudade quieta,
dor suave e indefinível.

— Mas, no fim,
a cada timidez do descobrir,
a cada sorriso,
a cada toque de olhar,
do infinito o vislumbre,
no caminho das eras.

— A cada sentir da presença,
alegria
(palavras fazem diferença?)





Delicada e reverentemente,
silente do espaço ou tempo,
o coração da alma respirava.

Porque nunca haveria o nada.


Peregrinar
pelas vidas do Universo...
Eternidade.