25 novembro 2014
20 outubro 2014
Histórias das almas: a luz do peito — final
Acompanhe a parte 1.
†
O peregrino, enrolado
no manto escuro,
fechado em si
para ouvir.
Cabeça baixa:
— Conte-me o que lhe
vai no interno mundo,
que não sairei daqui.
O homem deu
um longo suspiro.
†
Era uma vez
apenas um alguém.
Na noite dos caminhos,
passo após passo,
procurando além.
Ao sentir dos ermos,
contemplação —
o respirar das folhas,
o bater de asas...
Nada a dizer
sob a suave brisa.
O concerto-piar
cantava a vida
(alto acima).
Mas o homem
não entendia.
Logo, anoitecia.
O sol caindo,
das sombras o conforto...
Escuro entorno.
E ele
sentado, calado,
ainda quieto.
Estava ali,
pelas estrelas assistido.
Foi quando
encontrou um sorriso:
— Perdido,
o que aqui faz aqui,
longe do dia,
da vida?
(Aquela voz...
sussurro suave
de flor ao vento.)
Arrepiou-se
por um momento.
O tempo parou.
E então,
coragem para contempar —
a cor do Universo
dançava em seu olhar.
("Ah, e como queria perder-me lá!") —
rosto de poesia,
de carícia meiga e profunda...
Ele conseguiu apenas
apontar a lua.
Dela, mais um sorriso.
— Perdido,
espero que encontre
o que procura.
Disse e, semblante sereno,
ficou o céu a contemplar.
Ele, no entanto,
não queria o
firmamento olhar.
Porque,
naquele instante,
impulso profundo
de tocá-la com os
lábios, alma,
segurá-la a mão.
O coração
no silêncio da
falta de jeito...
Fechou os olhos,
suspirando ficar
em seu sorriso, guardar
aquele momento.
†
Palavras em tom
de arrebatamento:
Entenda, peregrino,
antes daquela noite,
eu não era poeta.
E ela era poesia.
†
Com a luz do dia,
o (agora) bardo
tomou da lira.
Queria transpor
da inspiração o portal.
— Afinal, haveria mal
em tocá-la do coração
as cordas?
Queria dá-la
um presente,
mostrar o que sente.
— Mas onde as notas?
O bardo procurou
na mais alta montanha,
cume-sobre-o-céu.
Ali, no mistério
do véu, meditou —
e apenas tremeu
para o hálito das alturas.
Dura descida até os campos.
Sem resposta, tanto, tanto
a caminhar.
Não dedilhava
de Orfeu a harpa;
no entanto, buscava...
Havia de encontrar!
†
A chuva acariciava
das flores os campos,
meigas, delicadas, belas.
No olhar, o bardo
trazia o rosto dela,
enquanto procurava
palavras ternas.
Primavera na jornada,
abraçava a beleza
do amanhecer.
Ele tentou entender,
buscou versos.
Circunspecto,
silêncio e solidão nos caminhos,
apenas o bater do coração
indicava o infinito.
Cidades, paisagens...
(Saudades.)
Palavras, notas da alma...
(Verdades?)
†
Ao findar do dia,
alma muda
pelo caminhar.
A luz da lua
ficou a contemplar.
Suave claridade
penetrou-lhe
a alma.
Mas a calma
da noite, então,
ao coração
trouxe dor.
Porque o trovador,
num repente
mais que de repente,
penetrou a semente
da verdade:
O sentir da bela
não era por ti;
a espera dela
brilhava sobre o céu.
Ali, onde as estrelas
eram versos
do Universo.
†
— Peregrino,
o peito dela batia
pelo infinito,
e não por mim.
†
Foi assim que
o bardo (agora calado),
percebeu o egoísmo
que nutria.
Sorriu.
E, olhos sonhadores,
ficou o céu a contemplar.
Sentiu algo brilhar:
— Quero tornar-me luz,
estar lá.
Encontrá-la um dia,
e presentear da alma
a poesia.
†
Não é um triste
conto, enfim,
pensou o peregrino,
já longe dali.
†
Outras noites
sopraram.
O que aconteceu
com o espírito
do bardo,
o errante não soube.
No entanto,
certa noite...
Quando também
sob o firmamento
meditou...
O peregrino arregalou
o olhar...
E sorriu ao encontrar
de estrelas
um outro par...
†
23 setembro 2014
20 setembro 2014
27 agosto 2014
26 agosto 2014
Histórias das almas: a luz do peito — parte 1
De volta o peregrino
volitando sobre o mar.
Das ondas do sussurrar,
de repente, erguem-se vozes,
imagens — (miragens?),
em tom inocente:
"Das névoas abandonado,
mergulhe conosco.
Aguarda-lhe o reino
de Tritão."
— Afastem-se, seres das escamas.
Retornem ao abismo da lama.
— Meus umbrais são outros.
Devo assistir os mortos
de corpo, alma, coração.
Sou companheiro das
trevas e solidão.
— Não tenho reino,
apenas caminho
nos umbrais da vida.
Ando pelas eras,
ouvindo a névoa,
a longa noite.
"Tolo, olhe ao longe!
Os rostos que quer alcançar
já estão muito além de ti.
Não estenda as mãos."
O peregrino sentiu um aperto
no coração.
— Não...
"Quem se importa
com o seu sentir?"
Tristeza além
de qualquer frase.
"Apenas miragens..."
— Do abismo de mim,
sou íntimo.
E continuou a voar...
Rápido.
Rápido.
Rápido!
"Preste atenção em suas ilusões!"
Sobre o mar, iguais todos os rincões.
"Indiferença?
Compaixão?
Não fuja,
não tenha medo!"
No peregrino, silêncio.
De repente, ambos pararam.
Um apontar de tridente:
"O que é aquela luz?"
O peregrino, em tom solene:
— É o juramento patente
de um coração.
Além do horizonte, então,
outra cidade.
O errante voou,
querendo pisar o chão,
e deixando com saudade
das sombras o tritão.
†
Sobre um penhasco,
havia um bardo,
sozinho, calado.
— Por que está quieto?
O Universo está cheio de versos.
Que me importa o sopro do vento,
o orvalho na folha,
o canto dos pássaros?
— Diga-me então:
qual o seu Tártaro?
Não vê?
É o silêncio do coração.
— Dividiria comigo o seu conto?
Apenas palavras com
tom de sonho.
Por que lançá-las ao léu?
— Menestrel, a vontade
da alma deve ser dita.
Muito bem, amigo,
compartilho minha desdita...
†
17 agosto 2014
27 julho 2014
Além do além
Mais uma vez,
o peregrino virou espírito.
Do abismo, em vôo mudo,
foi ter no mundo.
Ao transpor
do céu escuro,
o gemido dos esquecidos
tremia lembranças:
fogo e mito, do mundo o sussurro...
Apenas ânsias.
E então, desejo de asas,
(voar ao nada?)
Mas não havia amém.
O que esperava além do além?
†
Acima dos prédios,
o tédio do mundo.
O peregrino
piscou enfado.
Cansado de si,
das sombras do mais profundo.
Ao olhar acima:
— Os céus estão vazios.
Naquela hora,
aperto no coração —
a angústia do solitário...
"Não chore.
Sei que está acostumado."
— De quem é esta voz torpe?
"Apenas um observador
da comédia dos viventes."
Nas ruas, luzes, barulhos,
pensamentos em vozerio.
O suspiro veio triste:
— Tanto vazio...
"Sempre os mesmos erros...
Pensamentos cegos,
vã vaidade, ego..."
— Mas também saudade,
sorriso, carinho.
"...E corações esquecidos."
O errante não
se deu por vencido:
— Vamos, sombra.
Venha voar comigo.
"Ora, por que estar lá?
Não quero descer.
Este é o meu Olimpo;
não tenho mais inimigas ilusões."
Sem paixão...,
pensou o peregrino.
E então:
— Venha, somente,
deslizar entre os viventes.
†
"Fascinação na vida?
Por que tentam pintar o cinza?
Olhe estas terras sombrias."
Estavam entre risos de festa.
Álcool, a aberta porta.
— Os demônios fugiram
porque não tinham respostas.
"Deixaram os tolos em suas conchas.
Mimados pela vida,
sem passado, sem futuro."
O peregrino suspirou:
— Somos sombras e gritos mudos?
†
Na missa, o padre
saboreava o sangue
do Cordeiro, pelas ovelhas.
"Igreja!" bufou o espírito.
"Não há regozijo bíblico!
Somente um paraíso negro!
Ah, Igreja..."
"Buscam da vida o mistério
em páginas antigas.
Mas todas terminam
no cemitério."
— Não são perdidos.
Não como nós, acredito.
"Todos estamos sozinhos."
Das velas, as chamas
dançavam sombras.
†
"Peregrino! Venha ver!
Este vai pular!"
Condenado por si mesmo...
"Este é um antigo guerreiro,
soldado de muitos campos.
Agora, tem medo da própria vida."
O silêncio dos mortos por companhia...,
pensou o peregrino, enquanto,
sem paixão, o via cair.
"Agora você vê, peregrino?
Somos Hades."
E então, de repente,
quanta saudade...
Mas do quê?
Não saberia dizer.
†
O céu escuro.
O peregrino e o espírito,
sentados ao lado.
— A noite da alma...
"A falsa calma."
— Vá embora, carrasco,
vulto condenado.
"Mostro apenas a realidade."
— Não preciso de
sua sensibilidade.
"Ora, tu quem me chamaste,
caminhante do cio."
"Vamos, crie suas próprias formas,
pinte sua porta.
Sorria colorido.
Não é assim que fazem o infinito?"
"Eu vejo a morte nas coisas,
a verdadeira forma da vida.
A si, não se minta: somos tempestade,
redemoinho às margens da realidade."
E então, soprou-se longe, e sumiu.
— Encontrará você seu caminho?
†
Ainda morto entre os vivos,
o peregrino quis mais um pouco
voar sozinho.
Sobre as águas,
o vento em bálsamo.
Sensação de infinito.
De repente, ali,
mais além, alguém.
Sentada, sozinha.
Bela, rosto de poesia.
O peregrino parou em seus olhos
de reflexão serena e profunda.
Distante, observou-a muda.
Tocava-a com o olhar.
Quis o tempo parar...
Do lado, um chocolate.
"— Quer um pedaço?"
Engasgo:
— Você me vê?!
"— Venha, sente-se ao lado."
O caminhante fechou os olhos,
querendo esquecer o antes.
E então, do fundo de si,
nasceu um sorriso:
— Aqui é o paraíso?
Ela deu de ombros.
Ele sorriu:
— Que bom que estás aqui.
†
28 junho 2014
21 junho 2014
15 junho 2014
"Os céus estão vazios."
Longa viagem no terreno umbroso.
Junto, o sem-som de si.
De cor parda o sol(?)
sob névoa e lodo.
Por que estava ali?
Resgate...
Sua missão: combater,
buscar, escrever.
Por quantos abismos descera?
Não saberia dizer.
Os seres que contemplara —
deformados de ódio,
com medo do degredo —,
rosnavam profanos.
Humanos?
Viventes do escuro,
os sussurros do mundo
não lhes chegavam mais.
†
O peregrino volitando sobre o rio.
Mesmo sem luz,
reflexo deturpado —
também era sombra.
Encontrou novamente o palhaço,
que lhe riu.
E tossiu.
E caiu.
†
No Estige, cadáveres-almas.
Não, nunca águas calmas —
mas o barqueiro não se importou,
tampouco importunou.
O peregrino ofereceu a mão,
diante de um que com os braços pedia.
O abismo refletia-se em seu olhar,
e nunca a luz do dia...
O vento lamentava seu ouvido,
junto com o toque gelado do morto-vivo.
Logo, voando sob as nuvens, ouviu:
— "Anjo de asas de corvo, sou um estorvo?"
— Não. Do contrário, não te daria a mão.
— "Então por que o buraco negro?"
— Veio por seus próprios medos.
— "Mas eu não..." —
— Cala-te! Voe. Apenas voe.
†
Tanta penumbra,
desesperança.
O negar do coração
fazia a dor nascer.
Só restava sofrer?
— Não...
Era peregrino,
guerreiro-poeta.
Não vítima,
não ovelha, não mártir.
Sua missão:
Voar, olhar, lutar, partir.
Ajudar, defender.
Era sua missão, de corpo,
alma, coração.
Era seu juramento,
por esta noite,
e por todas que virão.
Era justiça, não juiz.
Era carne, espírito,
humano destino.
Mas, acima de tudo...
era soturno, sozinho,
com o coração longe dali.
Voar, olhar, lutar, partir.
Amar.
†
Mais tarde, ainda e sempre, o mundo escuro.
Sentado, o errante guardava silêncio,
embora não de calvário.
A noite em mil cores, todas negras.
O pensamento em sussurro,
como um réquiem mudo.
Suspirou.
— Saudade.
De repente:
— Amante das sombras, que faz aqui?
Era a mãe negra, Kali.
— Senhora do Universo, por que vem perto?
— Estou apenas o infinito a olhar.
Por momentos, parou a contemplá-la.
Balangava um colar de crânios,
tantos mais quanto os seis braços.
Corpo azul-sombrio,
olhar feroz e frio.
Destruidora da maldade,
cabelos revoltos de beldade.
Não introspecção: atividade.
Não se sentou ao lado a divindade.
Disse o caminhante:
— Esta noite, a lua não brilha.
— O céu está vazio — ela sorriu.
O peregrino arregalou o olhar,
procurando com o coração.
— Não adianta. Não vai encontrar.
— Não está lá.
Olhar triste para o vazio:
— Sumiu, tal qual um suspiro?
— Peregrino. Ante o silêncio
e a solidão dos seres, o infinito
não fica silente.
Em seu amor, que também é prazer,
as estrelas, cometas vêm
também descer até aqui.
— Vêm de mais além, obedecendo
ao bem querer daqueles que chamam.
Sonho é a alma querendo.
Ele tudo ouviu em silêncio de conforto.
Pensou em estrela de preciosa beleza.
Vinda das eras,
amada pelo que era.
Então abaixou a cabeça,
cerrou os olhos,
sorrindo com o profundo de si.
— Kali, estou contente que tenha vindo.
Ela, em seu modo majestoso, nunca sutil,
também sorriu.
— Os céus estão vazios.
†
11 junho 2014
09 junho 2014
20 maio 2014
Sussurros #5
Trás amanhã e trás amanhã de novo,
Vai, a pequenos passos, dia a dia,
Até a última sílaba do tempo;
Inscrito. E todos esses nossos ontens
Têm alumiado aos tontos que nós somos
Nosso caminho para o pó da morte.
Breve candeia, apaga-te! Que a vida
É uma sombra ambulante; um pobre ator
Que gesticula em cena uma hora ou duas,
Depois não se ouve mais; um conto cheio
De bulha e fúria, dito por um louco, significando nada.
— William Shakespeare. Macbeth, ato V, cena V (tradução de Manuel Bandeira)
11 maio 2014
04 maio 2014
27 abril 2014
Palhaço-mundo
No cárcere,
o homem em bandagens
à margem de si.
Paredes acolchoadas
à prova de golpes.
Da porta, vozes:
— Que sorte que estás aqui.
Caindo, caindo...
Caído na sombra.
No profundo abismo,
o homem encara o infinito.
Sozinho.
No vazio, a voz tão longe...
Mas ninguém responde.
Incômodo.
Às vezes, outros cospem:
— Louco!
E logo a camisa a estuprar.
O homem tenta os braços um pouco.
Força, sem movimento.
Primeiro o lamento,
mas logo o silêncio.
†
Da entrada, ouviu um dia:
— Ouça sua alma.
O homem riu irônico.
— Eu só tenho agonia.
— As sombras são sua companhia.
†
Noite. Catre inquieto.
Perto da dormência, o vislumbre do outro mundo.
Como desfazer o nó de si?
E sempre a muda pergunta:
— Por que estou aqui?
†
Além do além,
a alma não mais sufocada respirava.
Nas paragens de cinzas,
chamavam rostos irmãos:
— Venha junto na escuridão.
E então, o homem deixa cair a máscara de espinhos.
Mas sem sorriso.
Dois espíritos à sua frente olhavam,
uma boneca e um palhaço, rostos pintados:
— Que faz aqui, irmão?
— Procuro das almas o aberto salão.
A pequena, a sussurrar:
"Acaso está bêbado da vida?"
E o outro a gozar:
— És palhaço? Gosta de rir?
O homem recuou do cuspe no chão.
— Pra onde então ir?
Dos fantasmas, gargalhadas irônicas.
— Alma penada, olhe: o portal está ali.
O olhar a forçar, mas:
— Não vejo aberta a entrada.
— Provou o suficiente da ração dos viventes?
"Porque apenas ela é do portal o batente."
— Meu quinhão são sombras, somente.
— Não se faça de vítima.
"Não leu os versos do escuro?"
— Meu mundo é mudo.
"Você diz as palavras erradas."
— Agora chega! Marcha, e vai-te daqui!
†
Quando o homem distante:
"Lembra-te de antes, de um certo peregrino?"
— Sim. Também queria transpor o portal infinito.
Os guizos dos chapéus fizeram barulho naquele mundo tristonho.
E a boneca, num muxoxo:
"Dono meu, além daquela porta, lá fora a verdade persiste?"
E o palhaço se engasgou:
— Ora, ela nem mesmo existe!
†
25 abril 2014
Sonho estelar
A onda de choque puxou a mim, Herege, Rato e Buraco Negro pra fora.
Fora da nave, da vida, suspirei Verônica.
Sem ar — sonho estelar.
08 abril 2014
Sussurros #4
Madrigal
Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão.
Como o céu refletido
nas pupilas de um cão.
— José Paulo Paes
07 abril 2014
29 março 2014
Sussurros #3
O Iniciado
Que direção indica o caminho correto, enquanto permaneço
diante desta encruzilhada caótica de ódio?...
Quantas maneiras existem para vagar
nesta estrada escura e maldita chamada Destino?...
"Existem diversas maneiras, meu filho,
para descobrir onde as almas dos Demônios permanecem...
Mas leva-se apenas um segundo de desespero e dúvida
até que finalmente, da sua alma, eles se apoderem...
Herda estas terras, estes objetos, estes sonhos
que te pertencem, eternamente, para adorá-los...
Pois não há vida, nas profundezas do caos, meu filho, para explorares..."
C. Vincent Metzen
21 março 2014
Sob as nuvens
O peregrino caminhando sem destino.
Manto puído, cabeça baixa para o noturno.
Sozinho.
Soturno, sensação úmida:
— Chuva.
Levantou o olhar, e lá estava um templo.
Chegou perto, colunas caídas de tempo.
E — alegria! — ainda teto.
De repente, arrepio, mas não de frio, porque perto ouviu:
— O que faz aqui, viajante perdido?
Respondeu, alma em riste:
— Procuro abrigo das nuvens.
A mulher riu um riso, mas triste.
— Apure seus sentidos. Não sabe que elas estão em ti?
— Sim, mas gostaria de ficar seco por aqui —
— Sou Pandora.
Ele sorriu agora:
— Apenas um peregrino.
†
Pandora e o peregrino, lado a lado sentados.
Ela disse, as nuvens a olhar:
— São mau agouro. Não param de me perseguir.
Mas ele apenas a olhava de lábios e olhos entreabertos, suspirando desejo de estar mais perto.
Não queria perguntar:
— Então por que está aqui?
Ouviu-a apenas repetir:
— Não param de me perseguir...
"Todos os lugares iguais", lembrou o peregrino.
Olhou para o céu, querendo dividir o infinito.
— Veja as estrelas. Elas brilham para você. (Como não poderiam?)
— Para mim? Não sabe o que fiz para falar assim.
Errado. Pelo errante, a história de Pandora era conhecida:
Virtude dos deuses, flor entre as mulheres.
(Com um titã compartilhava o caminhar.
E não um sátiro, com a flauta a ninfa a lamentar.)
E ela abrira a caixa proibida.
Não uma divindade — e, por isso mesmo, linda.
Bela e, no entanto, diferente.
Ele sentiu o coração contente.
— Sobre a nuvem, eu...
— Pode ficar, mas não pedi sua ajuda.
"Além das palavras...", pensou.
Suas mãos tentaram carícia:
— O que está fazendo?!
O peregrino encolheu a alma.
"Como abrir as portas do seu coração, do seu sentir?"
Ficou em silêncio.
Queria tocar-lhe a essência, o peito.
Sem jeito.
Apenas silêncio.
†
— Entenda. No fim, estamos sozinhos.
Gotas caindo no lago.
— Cada uma delas forma o infinito.
— Que diferença faz? Não me aprás voar.
— Mesmo quando o pássaro anda, sente-se que tem asas.
— Não sei que caminho eu estou seguindo.
— Não sei por qual caminho eu tenho vindo.
O peregrino deixou-se sob a chuva e lágrimas juntas.
Pandora muda, em seu mundo fechado ao caminhante.
†
Noite avançada.
Sobre a cama, Pandora adormecida, plena em si mesma.
O peregrino olhava-a em contemplação.
Ainda a chuva e a sina.
E o sussurro do peregrino, querendo afastar a dor:
— Voe comigo em essência, além das nuvens.
— Deixe-me segurar sua cabeça entre as mãos.
— Despertar, ao toque, do momento o calor.
— Ouvi-la falar sem palavras. Entender seu olhar.
— Em poesia, beijar.
(No lago refletindo a lua-e-estrelas
uma pedra cai
espantando o vaga-lume;
estrela que vai
cadente no desejo
de duas sombras-bocas
se aproximando, perto,
mais perto...
— explosão do Universo.)
— E que ventura seria se o tempo pudesse parar...
Mas o dia logo surgiria. E, com ele, o que viria.
E, quando o sol brilhar, a necessidade de caminhar.
Em mil mundos, teria que peregrinar.
Mas, no fundo, não queria.
Porque, de todos os astros do céu, só desejava, com o profundo de si, estar ali.
Mas não podia.
†
Pandora, mais uma vez, a caixa a abrir.
Estava pronta para, sem lágrimas, novamente chorar.
Mas, de repente, no fundo, havia algo a mais.
Ao lado da Esperança, o leve brilhar de uma partícula.
Teve que se aproximar para sentir e sorrir:
Porque era pó de estrelas.
†
(— Veja as estrelas. Elas brilham para você.)
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