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26 agosto 2014

Histórias das almas: a luz do peito — parte 1

De volta o peregrino
volitando sobre o mar.

Das ondas do sussurrar,
de repente, erguem-se vozes,
imagens — (miragens?),
em tom inocente:

"Das névoas abandonado,
mergulhe conosco.
Aguarda-lhe o reino
de Tritão."


— Afastem-se, seres das escamas.
Retornem ao abismo da lama.

— Meus umbrais são outros.
Devo assistir os mortos
de corpo, alma, coração.
Sou companheiro das
trevas e solidão.

— Não tenho reino,
apenas caminho
nos umbrais da vida.
Ando pelas eras,
ouvindo a névoa,
a longa noite.

"Tolo, olhe ao longe!
Os rostos que quer alcançar
já estão muito além de ti.
Não estenda as mãos."

O peregrino sentiu um aperto
no coração.

— Não...

"Quem se importa
com o seu sentir?"

Tristeza além
de qualquer frase.

"Apenas miragens..."

— Do abismo de mim,
sou íntimo.

E continuou a voar...

Rápido.

Rápido.

Rápido!

"Preste atenção em suas ilusões!"

Sobre o mar, iguais todos os rincões.

"Indiferença?
Compaixão?
Não fuja,
não tenha medo!"

No peregrino, silêncio.

De repente, ambos pararam.

Um apontar de tridente:
"O que é aquela luz?"

O peregrino, em tom solene:
— É o juramento patente
de um coração.


Além do horizonte, então,
outra cidade.

O errante voou,
querendo pisar o chão,
e deixando com saudade
das sombras o tritão.


Sobre um penhasco,
havia um bardo,
sozinho, calado.


— Por que está quieto?
O Universo está cheio de versos.

Que me importa o sopro do vento,
o orvalho na folha,
o canto dos pássaros?

— Diga-me então:
qual o seu Tártaro?
Não vê?
É o silêncio do coração.

— Dividiria comigo o seu conto?
Apenas palavras com
tom de sonho.
Por que lançá-las ao léu?

— Menestrel, a vontade
da alma deve ser dita.

Muito bem, amigo,
compartilho minha desdita...


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