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30 março 2017

29 março 2017

O guerreiro perdido


— Fique e escute... —
disse o homem.

O peregrino sempre
no silêncio do espírito.

Por que motivo
me importaria
a sua sina, alma?

Deixe-me aqui,
a contemplar
as noturnas vagas.


Desenhos na areia,
grãos nas mãos.

Mais um que amarga
da colheita a solidão?

— Miserável homem que sou.
Quem me livrará do corpo
desta morte?

Tu já és alma,
embora não inocente.
Não desafie a sorte —
negar-se a si,
não tente.

O homem não se deu
por vencido:

— Escuridão e esperança,
ser dos caminhos.
É o que sou.

Soturno como
a terra sem luz,
o andarilho
apenas o olhava,
sob o capuz.

De certo demônio,
me vem a lembrança...

— Tal me é familiar?

Ele vem de outro mar...
Desdenhava da luz,
regozijando-se, irônico e estoico,
em sua sombra.

Para os viventes
possuía tão somente
o profundo silêncio.

Sombra de um sorriso:

Há muito, a noite
me faz guarida.
Gostaria de voltar à vida,
ver a luz.

E, num suspiro:

Pois bem, mártir,
qual a sua narrativa?


— Há muitas vidas,
peregrino,
eu era da guerra.

— O chamado do combate,
a via do guerreiro
gritava forte n´alma.

— Desde tenra lembrança,
o erguer da lança.

— Aos gritos de Alexandre,
o conhecer do mundo,
a estrada vermelha.

— A visão estreita,
até o próximo inimigo.

— Sob a águia da legião,
a parede de escudos,
a marcha para dominar.


(César caído,
aonde ir?)

(Pois a besta,
num reflexo de espelho,
a sorrir.)

— Em nome de Deus,
brandi espada,
nas ameias das
Cruzadas.


(Mas a cimitarra
foi mais rápida.)

— A fumaça
dos mosquetes
impedia a visão.


— Divina comédia —
passei sem ver
Napoleão.

Os aviões
levavam a guerra
a distantes rincões.
Em minha trincheira,
amargava, amargava o nada...




— Conflito após conflito,
sempre o medo e abismo.
— Esta é a minha história,
peregrino.

Conheço o umbral
a sussurrar,
guerreiro perdido.

Mas o que o fez mudar?

O homem brilhou o sorriso:

— Veja, ela está lá.



Pelas estrelas do céu,
quem é ela?

— Nunca vi mais bela.
Verso do etéreo...

Acaso trazida pela
graça do oceano?

— Como saberia? Não permanecem as águas
serenas em sua tristeza?

Ora, por que não se aproxima?
(mas o peregrino já sabia
a resposta.)

— Veja: não estão abertas
as portas da realidade.

— Eu sou noite,
tão somente.
Espírito do abismo,
muito além da luz.

— Ela é vivente.
Como poderia
ouvir-me os versos?

— Ah, tão perto...
e tão longe,
qual estrela cadente.


O que ela faz
nestas areias?

— Acredito que esteja
à procura de si mesma,
a folhear, em contemplação,
o livro do universo.

Decerto não possui
apenas o dia em
seu sentir.

— Sim...
mas que ventura seria
o brilhar do sol
em seus cabelos;
a luz da lua
em seu olhar.

— Ah, queria estar lá...

— Tenho aprendido
com sua presença serena...
Ao contemplá-la,
a alma plena
da verdade do coração.

— Seu olhar pensativo
cala-me fundo no espírito,
despertando-me o infinito —
como o firmamento
que procura.

— Ela é vivente.
Mas se encontra em
sintonia diferente.



— Ai de mim, peregrino.

— Ela me faz poeta.
E, no entanto,
não ouvirá
as batidas de meu peito,
a falta de jeito.

— A alma em tormento
por não conseguir expressar...


No homem,
da palavra o fim
em melancólico sorriso.

Após longo silêncio,
o peregrino:

Talvez haja um jeito
de se fazer ouvido.

— Diga-me como,
andarilho, que eu
sonho na sombra.

As ondas
sussurravam saudades.


— Como encontrar
eco em tal enigma
de alma?

A busca da vida,
a verdade do coração?

— Mas o que é a verdade,
se não o eterno caminhar?

Ouça-me, amigo:
quando o sono a fizer abrigo,
cante seus versos,
fale do infinito.
Faça-a voar.


E então, talvez,
seja-lhe dado conhecer
o mistério que se esconde
em tal querer.


Já distante,
o peregrino caminhava
pelo abismo.

Não havia ficado
para assistir
ao presente em versos.

Mas qual seria o porvir?

Lembrou-se das palavras
do guerreiro perdido,
à despedida:

— Vive sempre nesta escuridão?

Minha luz é íntima.
Agora, devo partir.