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20 outubro 2014

Histórias das almas: a luz do peito — final

Acompanhe a parte 1.


O peregrino, enrolado
no manto escuro,
fechado em si
para ouvir.

Cabeça baixa:
— Conte-me o que lhe
vai no interno mundo,
que não sairei daqui.

O homem deu
um longo suspiro.


Era uma vez
apenas um alguém.

Na noite dos caminhos,
passo após passo,
procurando além.


Ao sentir dos ermos,
contemplação —
o respirar das folhas,
o bater de asas...

Nada a dizer
sob a suave brisa.
O concerto-piar
cantava a vida
(alto acima).

Mas o homem
não entendia.

Logo, anoitecia.

O sol caindo,
das sombras o conforto...
Escuro entorno.

E ele
sentado, calado,
ainda quieto.

Estava ali,
pelas estrelas assistido.
Foi quando
encontrou um sorriso:

— Perdido,
o que aqui faz aqui,
longe do dia,
da vida?

(Aquela voz...
sussurro suave
de flor ao vento.)

Arrepiou-se
por um momento.
O tempo parou.

E então,
coragem para contempar —
a cor do Universo
dançava em seu olhar.

("Ah, e como queria perder-me lá!") —
rosto de poesia,
de carícia meiga e profunda...

Ele conseguiu apenas
apontar a lua.

Dela, mais um sorriso.

— Perdido,
espero que encontre
o que procura.

Disse e, semblante sereno,
ficou o céu a contemplar.


Ele, no entanto,
não queria o
firmamento olhar.

Porque,
naquele instante,
impulso profundo
de tocá-la com os
lábios, alma,
segurá-la a mão.

O coração
no silêncio da
falta de jeito...

Fechou os olhos,
suspirando ficar
em seu sorriso, guardar
aquele momento.


Palavras em tom
de arrebatamento:

Entenda, peregrino,
antes daquela noite,
eu não era poeta.

E ela era poesia.


Com a luz do dia,
o (agora) bardo
tomou da lira.

Queria transpor
da inspiração o portal.


— Afinal, haveria mal
em tocá-la do coração
as cordas?

Queria dá-la
um presente,
mostrar o que sente.

— Mas onde as notas?

O bardo procurou
na mais alta montanha,
cume-sobre-o-céu.

Ali, no mistério
do véu, meditou —
e apenas tremeu
para o hálito das alturas.

Dura descida até os campos.
Sem resposta, tanto, tanto
a caminhar.

Não dedilhava
de Orfeu a harpa;
no entanto, buscava...
Havia de encontrar!



A chuva acariciava
das flores os campos,
meigas, delicadas, belas.

No olhar, o bardo
trazia o rosto dela,
enquanto procurava
palavras ternas.

Primavera na jornada,
abraçava a beleza
do amanhecer.

Ele tentou entender,
buscou versos.

Circunspecto,
silêncio e solidão nos caminhos,
apenas o bater do coração
indicava o infinito.

Cidades, paisagens...
(Saudades.)
Palavras, notas da alma...
(Verdades?)



Ao findar do dia,
alma muda
pelo caminhar.
A luz da lua
ficou a contemplar.

Suave claridade
penetrou-lhe
a alma.

Mas a calma
da noite, então,
ao coração
trouxe dor.

Porque o trovador,
num repente
mais que de repente,
penetrou a semente
da verdade:

O sentir da bela
não era por ti;
a espera dela
brilhava sobre o céu.

Ali, onde as estrelas
eram versos
do Universo.



— Peregrino,
o peito dela batia
pelo infinito,
e não por mim.


Foi assim que
o bardo (agora calado),
percebeu o egoísmo
que nutria.

Sorriu.
E, olhos sonhadores,
ficou o céu a contemplar.

Sentiu algo brilhar:
— Quero tornar-me luz,
estar lá.
Encontrá-la um dia,
e presentear da alma
a poesia.




Não é um triste
conto, enfim,
pensou o peregrino,
já longe dali.


Outras noites
sopraram.

O que aconteceu
com o espírito
do bardo,
o errante não soube.

No entanto,
certa noite...

Quando também
sob o firmamento
meditou...

O peregrino arregalou
o olhar...

E sorriu ao encontrar
de estrelas
um outro par...