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29 março 2014

Sussurros #3


O Iniciado

Que direção indica o caminho correto, enquanto permaneço
diante desta encruzilhada caótica de ódio?...
Quantas maneiras existem para vagar
nesta estrada escura e maldita chamada Destino?...

"Existem diversas maneiras, meu filho,
para descobrir onde as almas dos Demônios permanecem...
Mas leva-se apenas um segundo de desespero e dúvida
até que finalmente, da sua alma, eles se apoderem...
Herda estas terras, estes objetos, estes sonhos
que te pertencem, eternamente, para adorá-los...
Pois não há vida, nas profundezas do caos, meu filho, para explorares..."

C. Vincent Metzen

21 março 2014

Sob as nuvens


O peregrino caminhando sem destino.

Manto puído, cabeça baixa para o noturno.

Sozinho.

Soturno, sensação úmida:

— Chuva.

Levantou o olhar, e lá estava um templo.

Chegou perto, colunas caídas de tempo.

E — alegria! — ainda teto.

De repente, arrepio, mas não de frio, porque perto ouviu:

— O que faz aqui, viajante perdido?

Respondeu, alma em riste:

— Procuro abrigo das nuvens.

A mulher riu um riso, mas triste.

— Apure seus sentidos. Não sabe que elas estão em ti?

— Sim, mas gostaria de ficar seco por aqui —

— Sou Pandora.


Ele sorriu agora:

— Apenas um peregrino.


Pandora e o peregrino, lado a lado sentados.

Ela disse, as nuvens a olhar:

— São mau agouro. Não param de me perseguir.

Mas ele apenas a olhava de lábios e olhos entreabertos, suspirando desejo de estar mais perto.

Não queria perguntar:

— Então por que está aqui?

Ouviu-a apenas repetir:

— Não param de me perseguir...

"Todos os lugares iguais", lembrou o peregrino.

Olhou para o céu, querendo dividir o infinito.

— Veja as estrelas. Elas brilham para você. (Como não poderiam?)

— Para mim? Não sabe o que fiz para falar assim.

Errado. Pelo errante, a história de Pandora era conhecida:

Virtude dos deuses, flor entre as mulheres.

(Com um titã compartilhava o caminhar.

E não um sátiro, com a flauta a ninfa a lamentar.)

E ela abrira a caixa proibida.

Não uma divindade — e, por isso mesmo, linda.

Bela e, no entanto, diferente.

Ele sentiu o coração contente.

— Sobre a nuvem, eu...

— Pode ficar, mas não pedi sua ajuda.

"Além das palavras...", pensou.

Suas mãos tentaram carícia:

— O que está fazendo?!

O peregrino encolheu a alma.

"Como abrir as portas do seu coração, do seu sentir?"

Ficou em silêncio.

Queria tocar-lhe a essência, o peito.

Sem jeito.

Apenas silêncio.


— Entenda. No fim, estamos sozinhos.

Gotas caindo no lago.

— Cada uma delas forma o infinito.

— Que diferença faz? Não me aprás voar.

— Mesmo quando o pássaro anda, sente-se que tem asas.

— Não sei que caminho eu estou seguindo.

— Não sei por qual caminho eu tenho vindo.

O peregrino deixou-se sob a chuva e lágrimas juntas.

Pandora muda, em seu mundo fechado ao caminhante.




Noite avançada.

Sobre a cama, Pandora adormecida, plena em si mesma.

O peregrino olhava-a em contemplação. 

Ainda a chuva e a sina.

E o sussurro do peregrino, querendo afastar a dor:

— Voe comigo em essência, além das nuvens.

— Deixe-me segurar sua cabeça entre as mãos.

— Despertar, ao toque, do momento o calor.

— Ouvi-la falar sem palavras. Entender seu olhar.

— Em poesia, beijar.

(No lago refletindo a lua-e-estrelas
uma pedra cai
espantando o vaga-lume;
estrela que vai
cadente no desejo
de duas sombras-bocas
se aproximando, perto,
mais perto...
— explosão do Universo.)

— E que ventura seria se o tempo pudesse parar...

Mas o dia logo surgiria. E, com ele, o que viria.

E, quando o sol brilhar, a necessidade de caminhar.

Em mil mundos, teria que peregrinar.

Mas, no fundo, não queria.

Porque, de todos os astros do céu, só desejava, com o profundo de si, estar ali.

Mas não podia.


Pandora, mais uma vez, a caixa a abrir.


Estava pronta para, sem lágrimas, novamente chorar.

Mas, de repente, no fundo, havia algo a mais.

Ao lado da Esperança, o leve brilhar de uma partícula.

Teve que se aproximar para sentir e sorrir:

Porque era pó de estrelas.


(— Veja as estrelas. Elas brilham para você.)



10 março 2014

Bush — Swallowed



A árvore e o caminho


O peregrino na estrada, sozinho consigo.

Cabeça baixa para o vento.

Suspirou:

— Não há perigo.

Sempre ao desabrigo do coração...

Perto, veio a lembrança do jardim secreto.

— O jazigo como último descanso?

No entanto, passo após passo em silêncio.

Na mente, momentos.

Ânsia de lembranças.

Paisagens transportadas no olhar.


Olhos ao céu:

— Queria voar.

À frente, o caminho infinito.

— Está em mim o conflito.

Silêncio na estrada, e nada mais.

Palavras de Fata-Morgana:

"Seu coração não encontrará guarida."

Ele apertou a mão no peito, e se forçou a caminhar.

Quieto, no deserto de si.

O dia claro em vida.

Além do céu, as estrelas continuavam a brilhar.

— Em algum lugar, hei de encontrar...

"Encontrar o quê, peregrino?"

Era uma árvore, em tom amigo. Corvos do destino em seus galhos.


"Vamos, converse comigo. Por acaso segue o caminho proibido?"

— Viajo sob o vento na pele.

"Mas não tem a sensação leve."

— Tão breve é o soprar do tempo...

"Se intenta um papiro para a vida, caminhante, não há."

— Engana-se. Não pranteio lamentos.

"Ouça: plante raízes no peito."

"Regue com a força da alma."

"Caminhe em calma, e não em dor."

"E — quem sabe? — quando sua copa estiver cheia..." 

— Mas então por que você não tem folhas?

A árvore sorriu:

"Ora, não vê que o sol abriu?"

Nesse momento, o calor do céu brilhou em si.

— Da Yggdrasil filha, gostaria de voar sob a luz do dia.

"Apenas os do espírito volitam."

Tão forte saudade, e a imagem da dama etérea, inspiração do poeta.


"Ela tem seu próprio vôo, peregrino. Estrela que brilha sob o hálito de Mithra."

"Leve-a no peito, acolha em sorriso do coração as batidas, e seja inteiro no caminhar."

— Forte. Inteiro...

"Agora, você deve ir, porque não tenho sombra para ti."

"Mas antes, diga-me: qual a sensação de volitar, peregrino?"

Ele sorriu.

— É como beijar o infinito.