O peregrino caminhando sem destino.
Manto puído, cabeça baixa para o noturno.
Sozinho.
Soturno, sensação úmida:
— Chuva.
Levantou o olhar, e lá estava um templo.
Chegou perto, colunas caídas de tempo.
E — alegria! — ainda teto.
De repente, arrepio, mas não de frio, porque perto ouviu:
— O que faz aqui, viajante perdido?
Respondeu, alma em riste:
— Procuro abrigo das nuvens.
A mulher riu um riso, mas triste.
— Apure seus sentidos. Não sabe que elas estão em ti?
— Sim, mas gostaria de ficar seco por aqui —
— Sou Pandora.
Ele sorriu agora:
— Apenas um peregrino.
†
Pandora e o peregrino, lado a lado sentados.
Ela disse, as nuvens a olhar:
— São mau agouro. Não param de me perseguir.
Mas ele apenas a olhava de lábios e olhos entreabertos, suspirando desejo de estar mais perto.
Não queria perguntar:
— Então por que está aqui?
Ouviu-a apenas repetir:
— Não param de me perseguir...
"Todos os lugares iguais", lembrou o peregrino.
Olhou para o céu, querendo dividir o infinito.
— Veja as estrelas. Elas brilham para você. (Como não poderiam?)
— Para mim? Não sabe o que fiz para falar assim.
Errado. Pelo errante, a história de Pandora era conhecida:
Virtude dos deuses, flor entre as mulheres.
(Com um titã compartilhava o caminhar.
E não um sátiro, com a flauta a ninfa a lamentar.)
E ela abrira a caixa proibida.
Não uma divindade — e, por isso mesmo, linda.
Bela e, no entanto, diferente.
Ele sentiu o coração contente.
— Sobre a nuvem, eu...
— Pode ficar, mas não pedi sua ajuda.
"Além das palavras...", pensou.
Suas mãos tentaram carícia:
— O que está fazendo?!
O peregrino encolheu a alma.
"Como abrir as portas do seu coração, do seu sentir?"
Ficou em silêncio.
Queria tocar-lhe a essência, o peito.
Sem jeito.
Apenas silêncio.
†
— Entenda. No fim, estamos sozinhos.
Gotas caindo no lago.
— Cada uma delas forma o infinito.
— Que diferença faz? Não me aprás voar.
— Mesmo quando o pássaro anda, sente-se que tem asas.
— Não sei que caminho eu estou seguindo.
— Não sei por qual caminho eu tenho vindo.
O peregrino deixou-se sob a chuva e lágrimas juntas.
Pandora muda, em seu mundo fechado ao caminhante.
†
Noite avançada.
Sobre a cama, Pandora adormecida, plena em si mesma.
O peregrino olhava-a em contemplação.
Ainda a chuva e a sina.
E o sussurro do peregrino, querendo afastar a dor:
— Voe comigo em essência, além das nuvens.
— Deixe-me segurar sua cabeça entre as mãos.
— Despertar, ao toque, do momento o calor.
— Ouvi-la falar sem palavras. Entender seu olhar.
— Em poesia, beijar.
(No lago refletindo a lua-e-estrelas
uma pedra cai
espantando o vaga-lume;
estrela que vai
cadente no desejo
de duas sombras-bocas
se aproximando, perto,
mais perto...
— explosão do Universo.)
— E que ventura seria se o tempo pudesse parar...
Mas o dia logo surgiria. E, com ele, o que viria.
E, quando o sol brilhar, a necessidade de caminhar.
Em mil mundos, teria que peregrinar.
Mas, no fundo, não queria.
Porque, de todos os astros do céu, só desejava, com o profundo de si, estar ali.
Mas não podia.
†
Pandora, mais uma vez, a caixa a abrir.
Estava pronta para, sem lágrimas, novamente chorar.
Mas, de repente, no fundo, havia algo a mais.
Ao lado da Esperança, o leve brilhar de uma partícula.
Teve que se aproximar para sentir e sorrir:
Porque era pó de estrelas.
†
(— Veja as estrelas. Elas brilham para você.)