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21 março 2014

Sob as nuvens


O peregrino caminhando sem destino.

Manto puído, cabeça baixa para o noturno.

Sozinho.

Soturno, sensação úmida:

— Chuva.

Levantou o olhar, e lá estava um templo.

Chegou perto, colunas caídas de tempo.

E — alegria! — ainda teto.

De repente, arrepio, mas não de frio, porque perto ouviu:

— O que faz aqui, viajante perdido?

Respondeu, alma em riste:

— Procuro abrigo das nuvens.

A mulher riu um riso, mas triste.

— Apure seus sentidos. Não sabe que elas estão em ti?

— Sim, mas gostaria de ficar seco por aqui —

— Sou Pandora.


Ele sorriu agora:

— Apenas um peregrino.


Pandora e o peregrino, lado a lado sentados.

Ela disse, as nuvens a olhar:

— São mau agouro. Não param de me perseguir.

Mas ele apenas a olhava de lábios e olhos entreabertos, suspirando desejo de estar mais perto.

Não queria perguntar:

— Então por que está aqui?

Ouviu-a apenas repetir:

— Não param de me perseguir...

"Todos os lugares iguais", lembrou o peregrino.

Olhou para o céu, querendo dividir o infinito.

— Veja as estrelas. Elas brilham para você. (Como não poderiam?)

— Para mim? Não sabe o que fiz para falar assim.

Errado. Pelo errante, a história de Pandora era conhecida:

Virtude dos deuses, flor entre as mulheres.

(Com um titã compartilhava o caminhar.

E não um sátiro, com a flauta a ninfa a lamentar.)

E ela abrira a caixa proibida.

Não uma divindade — e, por isso mesmo, linda.

Bela e, no entanto, diferente.

Ele sentiu o coração contente.

— Sobre a nuvem, eu...

— Pode ficar, mas não pedi sua ajuda.

"Além das palavras...", pensou.

Suas mãos tentaram carícia:

— O que está fazendo?!

O peregrino encolheu a alma.

"Como abrir as portas do seu coração, do seu sentir?"

Ficou em silêncio.

Queria tocar-lhe a essência, o peito.

Sem jeito.

Apenas silêncio.


— Entenda. No fim, estamos sozinhos.

Gotas caindo no lago.

— Cada uma delas forma o infinito.

— Que diferença faz? Não me aprás voar.

— Mesmo quando o pássaro anda, sente-se que tem asas.

— Não sei que caminho eu estou seguindo.

— Não sei por qual caminho eu tenho vindo.

O peregrino deixou-se sob a chuva e lágrimas juntas.

Pandora muda, em seu mundo fechado ao caminhante.




Noite avançada.

Sobre a cama, Pandora adormecida, plena em si mesma.

O peregrino olhava-a em contemplação. 

Ainda a chuva e a sina.

E o sussurro do peregrino, querendo afastar a dor:

— Voe comigo em essência, além das nuvens.

— Deixe-me segurar sua cabeça entre as mãos.

— Despertar, ao toque, do momento o calor.

— Ouvi-la falar sem palavras. Entender seu olhar.

— Em poesia, beijar.

(No lago refletindo a lua-e-estrelas
uma pedra cai
espantando o vaga-lume;
estrela que vai
cadente no desejo
de duas sombras-bocas
se aproximando, perto,
mais perto...
— explosão do Universo.)

— E que ventura seria se o tempo pudesse parar...

Mas o dia logo surgiria. E, com ele, o que viria.

E, quando o sol brilhar, a necessidade de caminhar.

Em mil mundos, teria que peregrinar.

Mas, no fundo, não queria.

Porque, de todos os astros do céu, só desejava, com o profundo de si, estar ali.

Mas não podia.


Pandora, mais uma vez, a caixa a abrir.


Estava pronta para, sem lágrimas, novamente chorar.

Mas, de repente, no fundo, havia algo a mais.

Ao lado da Esperança, o leve brilhar de uma partícula.

Teve que se aproximar para sentir e sorrir:

Porque era pó de estrelas.


(— Veja as estrelas. Elas brilham para você.)



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