Antes do começo da vida, do dia, do que seria, o peregrino ainda podia contemplar o fim da noite.
Ela morria apenas na visão, pois a lembrança do visto vivia dentro de cada respiração.
Uma voz de brisa intrometeu-se:
— O ocaso do escuro para o mundo, mas o abismo continuará pra você.
— Que quer dizer, Astréia, estrela de Virgem?
— Você irá volitar agora, rumo ao infinito, conhecer alguém.
— Alguma divindade?
— Ora, peregrino, não sabes tu que todos são deuses? Venha...
E alçaram o céu.
Céu que se tornou a imensidão negra de estrelas, cometas, nebulosas, astros de beleza silenciosa.
Lugares em que não existia a referência dos humanos.
E, logo, mesmo os pontos do infinito foram sumindo para dar lugar a uma outra dimensão.
— O que tal lugar?
— Encruzilhada dos caminhos siderais, ponto de encontro de consciências.
O peregrino, talvez por virtude de Astréia, sentia as energias, todas diferentes de qualquer uma do seu mundo de "viventes".
E uma delas lia sua alma-livro, sem susto ou invasão.
Apenas como aproximação, ela brilhava como um prisma, círculo de energia pulsante.
— Ser do longínquo, que missão o trás?
Palavras sem som, apenas uma energia boa e — por que não? — familiar.
— Vim do distante a convite de Astréia.
— Já nos conhecemos. Você se utiliza disso?
— ?
— De um conjunto primitivo.
Era o corpo "físico".
— É a natureza do meu planeta de origem.
Astréia sorria enquanto a consciência questionava:
— Como o mantém?
— Cobrindo-o de tecidos, alimentando-me de plantas e animais, limpando-o em águas, conservando-o para o tempo da vida.
— Tempo? Que tempo?
O peregrino pediu socorro com o olhar para Astréia. Ela respondeu:
— Os homens contam o tempo em anos, de acordo com o ciclo de sua estrela. Um ser de seu orbe encarna por quase 100 anos. Depois viram espírito, mas sempre são alma.
— Não entendo alma, sou essência — disse a consciência.
— Qual a diferença — quis saber o errante.
— Não sou o que vocês chamam de aparências.
— Porque não tem — a resposta veio automática, e o sorriso também.
Astréia sabia o que viria, e não se manifestou quando a consciência diminuiu o próprio brilho, para logo em seguida retomá-lo com toda a intensidade:
— Irmão das estrelas, podemos sorrir cometas, brilhar caminhos. Nossas luzes atravessam as dimensões. Somos todos poeria do infinito, suficientes por si só, eternos. Não precisamos manter um corpo. Qual o motivo?
— Evolução, talvez. Ou minha opção, aprender com a restrição.
— Não precisamos de corpos. Não acredito servirem para a evolução, mas apenas para a expressão linear de seres alienados ou masoquistas. Não há conquista em tão poucos sentidos. Nunca utilizei tais corpos.
— Meu protegido acha que você não pode se expressar assim, uma vez que nunca se utilizou de um físico — provocou Astréia.
Encorajado por ela, o peregrino concordou.
A consciência então disse:
— Esperem — a luz diminuiu e desapareceu.
Naquele canto do universo, escuridão calma e vazia.
— Seu nome é Tixx — explicou Astréia.
— Então a consciência tem nome...
— E por que não?
Súbito, veio a intensidade e a luz, a presença e a consciência.
— Onde esteve?
— No seu planeta, fazendo o papel de "vivente".
Surpresa no peregrino.
— E então?
— Interessante, mas massacrante e tedioso. Há muita manutenção do corpo, pouco tempo para evolução. O aprendizado é deveras curto. Não, ela não vem com o corpo, mas sim com a poeira do infinito, que faz parte da essência.
O peregrino não soube o que dizer.
— Vejo que Astréia já lhe disse meu nome.
— Como será agora, Tixx — atrapalhou-se, colocando a língua entre os dentes —, já que me mostrou tal horizonte?
— Por enquanto, você pertence àquele lugar. Abra seu espírito pelas letras, mostre as estrelas, e nós o estaremos esperando.
Astréia piscou, agradecendo, e partiram.
Logo, o peregrino pousava no deserto do dia, com a angústia do que seria...
O sol queimava em dúvida. O errante sem saber aonde ir.
Pegou um graveto, desenhou na areia. Brincou com as formas, tentando lembrar do encontro.