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30 dezembro 2013

O cachorro e a raposa — parte 2

 Acompanhe a parte 1.

† 


O som do vento...
O cão bebendo
a água do rio.

O vento frio
no pêlo molhado.
Ninguém ao lado,
desta vez.

— Talvez,
se aqui
a raposa estivesse...

Chacoalhando,
gotas na folha.
Orvalho.

Voz da coruja:
— Na relva, o orvalho
é a visão do passado.

Brilhou os olhos como o céu.
Quis ver, não conseguiu.
Sozinho ao léu.
Esparramou em gotas o rio.


Chovia.
Cada pingo trazia
lembrança e sorriso
daquele dia no rio.

E então,
olhos fechados,
batia o peito mais forte.

Era onde, sem perceber,
a raposa fazia toca.

O cachorro olhava
para a floresta e
se perguntava:
onde ela estava?
Mas não sabia dizer.

Peito doendo e sorrindo,
levava-a consigo.



O tempo passando,
os pêlos crescendo,
o vislumbre dos dias.

Logo, ele a sentia
no desabrochar da flor.
Na carícia do vento.

Pelos campos corria.
Sempre quieto,
ele a sentia.

O farfalhar das folhas,
companheiras dos passos.

Dormindo sob o tronco,
ela estava ao lado.

O murmúrio do riacho
acariciava o coração.

Suspirava pelo toque
de um momento.
Guardava silêncio...


Noite.
Seus olhos refletiam
os vaga-lumes.

E então, foi ali,
no silêncio de si,
que o cachorro descobriu —

Que o amor, o muito verdadeiro,
batendo bem fundo lá no peito,
está além do tempo.

Como o olhar de um momento.

Fechou os olhos.
Naquela noite, conseguiu voar.

— Agora, eu a posso
encontrar.
Não custa tentar.


26 dezembro 2013

Sentenced — End of the road




O cachorro e a raposa — parte 1


A coruja pousou no galho.
No de baixo, o magote de rebentos,
atentos para as palavras.

O vento fazia ondular as folhas
como um mar calmo.

— A alma tem a cor do olhar.
E é sobre os olhos de um cachorro
que vou contar, ao ver a raposa
que fez sua alma respirar.


Era uma vez um cachorrinho.
Ele era pulguento, mas não sozinho.
Pelos campos e florestas com a matilha
andava, iguais a eles todos.

Todos os dias, as mesmas coisas:
acordar ao sol nascer, caçar, comer,
brincar de brigar, dormir ao sol sumir.
E, quando muito cheiro insistente, banho.

Foi em uma dessas fungadas diferentes
que a viu, lá longe, nas águas do rio.
Os outros latiram a concordar:
— Uma amiga pra brincar!


Mas não o pequeno cachorro.
Por que bebia, ali da árvore,
as gotas brilhando saudade
antes de pingarem.

E os pêlos...
Fios com a cor
do sol se escondendo.

Então o pequenino
cheirou-se todo:
todo sujo, lambido,
preto, desgrenhado.

Rosto de tolo,
ficou sentado,
escondeu-se mais.

No silêncio da contemplação,
súbito, o outro olhar
alcançou sua direção.
Aquilo fez seu peito parar.

A alma tem a cor do olhar.

O cachorro fora do tempo.

Naquele momento, apenas
perdido nos olhos
da cor do infinito...

Os vaga-lumes altos do céu
não causavam mais o mesmo silêncio.
Foi com tormento que o cachorro percebeu —
ele era pulguento, e agora era sozinho.



24 dezembro 2013

Feliz Natal!


Feliz Natal!

Sem moral,
sem lições,
sem sermões,
apenas Natal.

Carinho, paz
e tudo mais.

São os desejos do peregrino —
bons ventos no caminho.

E, quando a sensação
de se sentir sozinho,
sorriso de estrelas
para o céu de si.

18 dezembro 2013

A última trincheira


Meu corpo dói.
Sim, os anos passaram.
E eu, deitado,
contemplo o teto,
perto do fim.

De todas as lembranças,
como queria
poder falar de amor.
mas, no fim da vida,
dói-me mais a própria
dor.

E, dentre todas elas,
eu me lembro da guerra.


Merda e morte...
e sorte.

A sorte do tolo,
todos iguais na dor.
O calor da granada, do fogo
dos fuzis o estertor.

Eu me lembro do céu.
Sempre cinzento e
ferrugem e fumaça.
Nunca o sol...
O céu com a cor da dor.

Nas sombras da trincheira,
não há caminhada sobranceira.
Velhos camaradas,
rostos com cheiro de morte,
terra, farda.

Sem alegrias, apenas
da vida o fardo.
Empedernidos, frágeis.
Exaustos, tristes.

Homens sem nome.
O mundo reduzido a sacos
de areia e arame farpado.


— Abaixe a cabeça, soldado!
Raiva de tudo e de todos.
Os dias pesados, sofridos,
insuportáveis, longos...

Eu me lembro do longo silvo
da artilharia, "a rainha das armas".
Queria o ruído distante,
mas logo o assobio,
e o encolher das almas.

Alto demais —
medo! —
explosão!
E a cratera da morte.

Tosses, gemidos.
Eu suo frio,
tremo para o fedor
de merda e lama.

Da vela a chama,
a vida pelas sujas
lentes dos binóculos.

A ordem vem logo:
— Armar-baioneta!
E então o arrepio de calor,
expectativa assassina.

Na vida, apenas um caminho:
o mundo da terra-de-ninguém.
E sempre há alguém
para lutar.

O capitão olha para o relógio
e para os homens no ócio
antes do silvo macabro.

E eu, deitado,
contemplo o teto,
perto do fim.

Olhos sem esperança,
olhos de sangue e coragem,
a lama em lavagem,
a linha do abatedouro.

Mexo-me na cama,
desespero sem glória.
O apito soa:
— Avançem!
Apenas memórias.

— Boa sorte!
E lá se foi,
no escorregar-subir,
o companheiro,
abençoado na batalha,
amaldiçoado na vida.


O tiro do fuzil é a hóstia
da comunhão.
Os homens na procissão
da glória.
E, na escória dos sentimentos,
o momento da morte.


Deitado, olho a janela.
Ainda cedo.

Foi-se o medo.
Resta apenas a foice
da derradeira sorte.

— Soldado,
estou do seu lado,
vim te buscar. Outro
descampado o aguarda.

— Mas, guarda do além,
irei sozinho?
Onde a mochila, o fuzil,
a ordem de
"Avante, infante"?

— Olhe para a janela,
novamente.

Obedeci.
Brilhava a manhã.

E ali, diante do antes,
as cruzes enfileiradas
saudavam
a luz da manhã.


Eu me lembro de uma manhã em particular,
uma manhã quando o sol apareceu,
dissipando o breu de
tanta dor... tanta dor...

Para o calor
quis os olhos fechar,
e sentir, lembrar
a cor da vida.

E, mesmo quando suspirava,
a simples visão do sol me fez sorrir...



02 dezembro 2013

Depois da batalha


Ele estava depois da batalha.
Não havia mortalha para os caídos,
somente dos moribundos os gemidos.
Cansaço de corpo e alma...

No caminho dos campos,
o único ganho era a vida.
Seguia cabisbaixo e, no entanto,
esperança após a vermelha lida?

Era aparente a calma,
o silêncio dos mortos por companhia...



Anoitecia.
Via as sombras diferentes.
Elas sorriam feitiçaria deturpada.
E então, divina piada,
ergue-se a espada.

— Demônio do abismo,
o que quer de mim?

Cruzado, não sou inimigo.
Estou do seu lado.


— Errado. Não pedi que viesse a mim.
Deixe-me em paz. Não procuro do profundo o profano calor.

Por que sofres assim, homem da dor?

— Eu apaguei, da vela da vida, a chama.
Não há redenção para alguém assim.
As folhas murmuram sons pagãos:
"Irmão, venha junto na solidão."

Cruzado, ouça. Eu sou como tu.
Andei por muitos caminhos.
Tremi à beira do abismo e,
com a visão do paraíso,
sequei lágrimas.

Na dança macabra, derramei sangue,
mas não me arrependi.
Agora, eu tenho palavras,
eu tenho alma.
Eu tenho o que senti e vi.

— Eu vejo minha imagem em seus olhos negros.

Das coisas que vi, não procuro redenção,
procuro caminhar. Isto digo a ti.

— E o que resta para mim?
Não há redenção para o afligido.

Por que o tom de sonho perdido?
Tu já ouviste: olhe dentro de si.

— Para onde ir?

O caminhar do caminho
está nas estrelas, no vento,
no chão, nas cinzas.

Ame em si, pois
os seres divinos —
e as bestas do abismo —
são apenas homens.

— Tão somente homens...
No alto, além da terra, floresta, o cruzado sorriu.
E, quando o demônio sumiu,
ali, naquele instante, aprendeu a sentir
o olhar profundo como o infinito.



O metal que vestia era frio como a noite,
mas não havia desconforto.
Mesmo no escuro, via das árvores o contorno,
as sombras sorrindo para si.

— Deixe-me no sorriso ficar.
A dor do abismo é sobre cinzas caminhar.

Além, o ponto de luz.
Muito longe, acima das colinas,
o vento em saudade que conduz
a vontade do coração.

E então, a cada passo, determinação.
O cruzado começou a correr.

14 novembro 2013

Histórias das almas: o jardim secreto


— Este é o jardim secreto — disse o coveiro, capuz descoberto.

O peregrino não entendeu:

— Ora, mas é um cemitério!

Mais um punhado de terra o buraco desceu.

Ele então parou, apoiado na pá, olhos brilhantes para diante.

— Aí que você se engana. Aqui nascem esperanças.

O peregrino olhou para o céu escuro e, num murmúrio:

— Alto demais o muro...

— Tolo. Você chora a noite dos caminhos.

Na cova, o cadáver disse num sorriso deturpado:

— Palhaço!


O peregrino desconcertado. Em silêncio, continuou a ouvir:

— No meio da própria treva, grita seu interior.

— Conheço a dor em mim... — fechou os olhos.

E lá estava da alma o jardim.

A brisa-éter, o céu estrelado, flores em fragrância.

Do murmúrio da fonte, a ânsia.

A água transbordando, encobrindo o mundo...

...E, no oceano, barco solitário sem reflexo nas águas.

— O céu está vazio.

Distâncias frias, vozes não respondidas.

— Alegrias?

Sim!, pensou o errante, com o profundo do coração.

— Não. Apenas vaidade, peregrino...

— Errado, espírito da desilusão.

— Redenção?

— Não procuro as divindades.

— Saudades o movem.

— Mas não dos que aqui estão.

O coveiro sentou-se, querendo assistir.

— Então, para onde ir?

— Não sei, em verdade... Apenas sinto a chama queimar em mim.

— Você quer volitar na noite do tempo.

O peregrino sentiu, em cada fibra, a dama etérea em si, e perguntou:

— Qual o tempo certo do Universo?

Uma gargalhada surgiu:

— Ora! Se eu soubesse, acha que estaria aqui?

Aperto no peito:

— Qual então a verdade do coração?

— Sou apenas sombra.

— Você diz com o egoísmo da alma.

O cadáver deu de ombros.

— Olhe para os lados. O que você vê?

— Lápides, florestas de cruzes.

— Luzes?

— Não.

— Então!

— Aqui nascem esperanças... — novamente o coveiro.

— Não ligue pra ele — veio o riso da cova.

— Peregrino, o vento sopra para quem está sobre a terra. Voe com o corvo no oceano do destino.

— Sou apenas uma gota em tal mar.

— Volte para o jardim da alma. O que vê?

— Escombros.

— Imbecil!

— Não. As águas baixaram — disse o coveiro.

— Eu vejo o vento beijar a árvore, o lamento das folhas molhadas. Eu vejo ninhos vazios, o ar em saudades.

— Não é um vale esquecido, guardião dos caminhos. Olhe para o chão.

O peregrino obedeceu, e viu.

Não havia céu, estrelas. Não havia o tempo.

Porque ali, no lago do jardim, respirava uma flor...


Qual o tempo certo do Universo?

— Não tem idade a emoção...


Veio um beija-flor.

O orvalho refletindo o profundo do infinito.

E, nos olhos, a imagem de estrela.


30 outubro 2013

Sussurros #1

Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,
Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
Do infinito à janela, eu gozo os cruéis prazeres.

E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.

— Baudelaire, "O abismo"
(tradução de Ivan Junqueira)

08 outubro 2013

Sussurros ocultos — final

Acompanhe a parte 1.



Noite sem estrelas.

O peregrino quieto num canto, querendo voar.

O peito doendo, a alma sem pensar.

O vento em silêncio, silêncio...

Nenhuma palavra em pena escrita, sons da alma, mudas alegrias desditas.

Imaginou as constelações, meditou com o olhar.

O corpo gritou, transbordando vontade de volitar.

A ânsia de entender a cada respiração o mistério da vida batendo no coração.

O frio das distâncias e a pedra a machucar.

E então, o brilho nos olhos e sorriso nos lábios abriram a sintonia para algo a mais.

Ele voou em silêncio.

Seus gestos, a única linguagem:

— Ó, Astréia de Virgem, coroe minha viagem.

Sem resposta dos céus, sozinho, sem estrelas, o peregrino quis descer.

Mas abriu a alma e — êxtase — o conforto de um crepúsculo a lhe envolver.

A força de seu coração acordou estrelas.

Lembrou-se de seu caminho: a Francesa, a sereia, a fada do gelo, almas viajantes. Um anjo da luxúria.

— Nada é como antes.

Passos nas areias, muro, palácio, o portão fechado.

A flor do deserto, respirando no jardim.


— Tudo faz parte de mim.

Mesmo assim, nas alturas, o coração voltou a doer.

A essência querendo dizer:

— Dama etérea, recebe meu beijo. Venha fazer parte de mim.

Não havia glória na trajetória do peregrino para dividir.

Mas volitar no infinito nas vezes em que o sono lhe fazia abrigo:

— Ah, como queria que estivesse ali...


Os momentos que passou, as estrelas que viu, não saberia descrever.


Abriu os olhos.

Era um sonho.

O errante quis ficar tristonho.

A fonte daquele lugar ainda murmurava suas águas.

Igual ao seu coração.

Sede e silêncio de lábio e mente.

O peregrino, somente.

De volta o breu.

Expressão de saudade. O fogo queimando nos archotes.

— Tenho que seguir o que me revela o norte.

— Agora você entendeu — surgiu a fada, e sorriu. — Compreendeu o prazer de corpo e mente e coração.

Continuou:

— Engana-se em se achar solitário, meu perdido. A dama etérea está em seu silêncio, e faz parte de sua essência, corpo, alma, coração.

O peregrino sentiu o corpo queimar de prazer, alegria e vontades.

No céu, as estrelas voltaram a brilhar com saudade.

Disse, por fim, o anjo da luxúria.

— Agora, você deve seguir.



Não havia glória na trajetória do peregrino para dividir.

Mas volitar no infinito nas vezes em que o sono lhe fazia abrigo:

— Ah, como queria que estivesse ali...


30 setembro 2013

Killswitch Engage — Holy diver




Sussurros ocultos — parte 1

Mais escuro.

O som das almas por vento, dentro do abismo a descer.

Apenas um único caminho, o eco lúgubre dos passos.

Mas não havia o peso do fardo, apenas a dança das sombras.


Sem muros, somente degraus.

De repente, tropeço. Mudança de direção. Escada a subir.

Só restava seguir.

A alma avessando, querendo entender.

Se bem ou mal, revirando o além.

Quase podia tocar o escuro, sempre o fundo de si.

— Até onde isto vai dar?

A resposta não demorou a surgir.

Logo, da entrada de uma caverna, a paisagem se abriu.

E, do alto, o peregrino viu.


Noite sem estrelas, montanhas sentinelas.

Vale florido, jardim de paraíso e, ao longe, clássicas colunas, escondendo um templo.

Beleza profunda, o ar em melancolia.

O peregrino sentiu calor.

— Pensava encontrar a dor.

— Ser perdido, seja bem-vindo.

Era uma voz baixa, quase um sussurro, que fazia uma fogueira em si nascer.

— Não sei quem és, mas eu queimo por você.


Ela pareceu flutuar até as costas do peregrino, suas palavras, próximas do ouvido, soando luxúria:

— Peregrino, eu sou o vento que alimenta a vela. O que a escuridão revela.

Fazia descer as costas de seus dedos pelos braços do errante, que mantinha a boca entreaberta, olhos fechados, sorriso de promessa, respiração de vontade:

— Eu estou em todos os lugares, eu estou em você, perdido dos caminhos. Eu sou o apelo silencioso, o olhar de calor, cheiros, desejos. Dos corpos, o movimento forte.

Ela ofereceu a mão pequena, macia ao toque. Dedos envolvidos:

— Vem comigo. Mostrarei o norte.

Suspiro, desceram, os olhos do peregrino querendo ver.

No meio do caminho, uma cadeira elétrica:

— Se procura a dor, tome seu assento.

— Não intento esta tortura.

— Junte-se a mim, das terras perdido. Meu mundo é diferente.

Mais instantes, e a grama acariciava os pés.

Havia uma fonte.

Aos montes, almas desnudas, correndo em volúpia.

Risos íntimos preenchiam o ar.

— O que tal lugar? Campos Elíseos? Dos deuses os escolhidos?

— Não obedeço as divindades, mas Eros também visita aqui.



O peregrino lembrou-se de Virgilio: "espera-lhe o caminho escuro".

— Não entendo. Por que seria escuro tal lugar?

— Ainda há aqueles que fazem sombra no prazer amar.

— Anjo da luxúria, sua voz agita o meu interior, como um caldeirão fervente.

— Então vem. Entregue-se de corpo e mente...


Breve, a continuação da saga.




23 setembro 2013

Korn — Freak on a leash




O caminho de Virgílio

Da nossa vida em meio da jornada
Achei-me numa selva tenebrosa
Tendo perdido a verdadeira estrada.

— Dante Alighieri, Divina Comédia, Canto I


Dia, sol, calor, conforto.

Quente, passos, do sorriso o contorno.

Luz da areia, o vento soprando promessas em silêncio da esperança que espera.

Desejo a cada passo, não mais sozinho, mas sim a saudade, a vontade do coração de estar mais perto.

Porém, no deserto do infinito, sempre a lembrança do abismo — mesmo sob a luz do mundo, o profundo mergulhar em si.

— Não se encante com a luz, peregrino. Ela ainda não é para ti.

— Virgilio?! — ajoelhando-se em reverência, cabeça baixa.


— Levanta-te, que não sou realeza, tampouco sombra. Sou o que sou.

— Poeta da era dos gládios, não sei como dizer, mas já estou sob a tutela de Astréia, estrela de Virgem.

— Tal já me foi dado conhecer. Ela irá inspirá-lo em seu destino.

Virgílio então gesticulou, e um buraco se abriu.

— Mais fundo você deve ir.

— O inferno, mais uma vez?

— Tu sabes que, em época acuada, guiei um florentino pelo portal da angústia. Os círculos de sofrimento calaram fundo em sua alma, a ponto da jornada ser talhada em versos de cantos.

— Espanto sua presença me causa. Conduzir-me-á pelo Limbo?

— Meu ofício foi apenas abrir o abismo. Porque o tempo fez sombra das palavras de Dante.

— Nada é como antes — entendeu o peregrino.

— Entenda, a jornada da vida não tem fim. Não há estrada reta ou caminho estreito. Os ramos da árvore do Universo assomam em todo lugar.

— Era houve em que Roma foi a glória e luz do mundo. Mas a poeira do tempo sempre sopra: lugares e entidades assumiram-lhe o estandarte, cada qual com sua Verdade. Mesmo assim, em meu caminhar, nunca conheci criatura ou homem ou deus ou palavra que me levasse, de fato, a ela.

— Então não há verdade, Virgilio? — e a tristeza no peito a apertar. Continuou:

— Se não há verdade, o que há além da eterna selva tenebrosa? Suas palavras matam-me a esperança, luminar, e me aumentam o desterro. Uma vez morta, ela não volta mais.

— Mas o que é a verdade, peregrino, senão o eterno caminhar? 

— Não sei se consigo pular em tal lugar — murmurou o errante, forçando o olhar para baixo no buraco.


— Teologia, metafísica, as disputas dos de meu tempo, o alento das escrituras de fé, e da ciência o conhecimento... Lampejos de algo a mais, das estrelas, do imponderável. A intuição no silêncio vem como o sussurro do vento nas folhas.

— O abismo não é a minha escolha.

— O calor do dia não deve envolvê-lo, por ora. E, mesmo se a luz o alcançasse, lembre-se que o prisma brilha em todas as cores, e em nenhuma. Não há separação em pólos, não há branco ou preto ou cinza.

— Sobrepuje sua natureza. Não seja como uma criança risonha com uma pedra bonita. Mesmo os louros na fronte do orgulhoso Apolo eram lágrimas de Dafne, tornada árvore.

Silêncio no peregrino.

— O vale abaixo faz parte de mim — concluiu.

— Desça. Observe. Ouça. Seja e persista. Compreenda. Sempre na medida de seu conhecimento, que muda como as marés, carícias de Hera.

— Entenda, a era das parábolas obscuras já passou. O sentido das palavras não deve ser duro, não mais do que o peito dos que gemem. Queime a chama do mundo em si, tal como o sentimento de uma antiga alma, ao buscar um poeta perdido no meio do caminho.

— Peregrino, além desta passagem, espera-lhe o caminho escuro. Cumpri o meu dever, mais uma vez. És teu senhor agora. Nada mais tenho a acrescentar.


"Não mais te falo, nem te aceno, entanto;
Possuis vontade livre, (...)
Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,
Pois de ti és senhor" (...)

O peregrino então acalentou imagens no coração, e sorriu para a escuridão.

10 setembro 2013

Tixx, das estrelas poeira

Antes do começo da vida, do dia, do que seria, o peregrino ainda podia contemplar o fim da noite.

Ela morria apenas na visão, pois a lembrança do visto vivia dentro de cada respiração.

Uma voz de brisa intrometeu-se:

— O ocaso do escuro para o mundo, mas o abismo continuará pra você.

— Que quer dizer, Astréia, estrela de Virgem?

— Você irá volitar agora, rumo ao infinito, conhecer alguém.

— Alguma divindade?

— Ora, peregrino, não sabes tu que todos são deuses? Venha...

E alçaram o céu.

Céu que se tornou a imensidão negra de estrelas, cometas, nebulosas, astros de beleza silenciosa.


Lugares em que não existia a referência dos humanos.


E, logo, mesmo os pontos do infinito foram sumindo para dar lugar a uma outra dimensão.


— O que tal lugar?

— Encruzilhada dos caminhos siderais, ponto de encontro de consciências.

O peregrino, talvez por virtude de Astréia, sentia as energias, todas diferentes de qualquer uma do seu mundo de "viventes".

E uma delas lia sua alma-livro, sem susto ou invasão.

Apenas como aproximação, ela brilhava como um prisma, círculo de energia pulsante.

— Ser do longínquo, que missão o trás?

Palavras sem som, apenas uma energia boa e — por que não? — familiar.

— Vim do distante a convite de Astréia.

— Já nos conhecemos. Você se utiliza disso?

— ?

— De um conjunto primitivo.

Era o corpo "físico".

— É a natureza do meu planeta de origem.

Astréia sorria enquanto a consciência questionava:

— Como o mantém?

— Cobrindo-o de tecidos, alimentando-me de plantas e animais, limpando-o em águas, conservando-o para o tempo da vida.

— Tempo? Que tempo?

O peregrino pediu socorro com o olhar para Astréia. Ela respondeu:

— Os homens contam o tempo em anos, de acordo com o ciclo de sua estrela. Um ser de seu orbe encarna por quase 100 anos. Depois viram espírito, mas sempre são alma.

— Não entendo alma, sou essência — disse a consciência.

— Qual a diferença — quis saber o errante.

— Não sou o que vocês chamam de aparências.

— Porque não tem — a resposta veio automática, e o sorriso também.

Astréia sabia o que viria, e não se manifestou quando a consciência diminuiu o próprio brilho, para logo em seguida retomá-lo com toda a intensidade:

— Irmão das estrelas, podemos sorrir cometas, brilhar caminhos. Nossas luzes atravessam as dimensões. Somos todos poeria do infinito, suficientes por si só, eternos. Não precisamos manter um corpo. Qual o motivo?

— Evolução, talvez. Ou minha opção, aprender com a restrição.

— Não precisamos de corpos. Não acredito servirem para a evolução, mas apenas para a expressão linear de seres alienados ou masoquistas. Não há conquista em tão poucos sentidos. Nunca utilizei tais corpos.

— Meu protegido acha que você não pode se expressar assim, uma vez que nunca se utilizou de um físico — provocou Astréia.

Encorajado por ela, o peregrino concordou.

A consciência então disse:

— Esperem — a luz diminuiu e desapareceu.

Naquele canto do universo, escuridão calma e vazia.

— Seu nome é Tixx — explicou Astréia.

— Então a consciência tem nome...

— E por que não?

Súbito, veio a intensidade e a luz, a presença e a consciência.

— Onde esteve?

— No seu planeta, fazendo o papel de "vivente".

Surpresa no peregrino.

— E então?

— Interessante, mas massacrante e tedioso. Há muita manutenção do corpo, pouco tempo para evolução. O aprendizado é deveras curto. Não, ela não vem com o corpo, mas sim com a poeira do infinito, que faz parte da essência.

O peregrino não soube o que dizer.

— Vejo que Astréia já lhe disse meu nome.

— Como será agora, Tixx — atrapalhou-se, colocando a língua entre os dentes —, já que me mostrou tal horizonte? 

— Por enquanto, você pertence àquele lugar. Abra seu espírito pelas letras, mostre as estrelas, e nós o estaremos esperando.

Astréia piscou, agradecendo, e partiram.


Logo, o peregrino pousava no deserto do dia, com a angústia do que seria...

O sol queimava em dúvida. O errante sem saber aonde ir.

Pegou um graveto, desenhou na areia. Brincou com as formas, tentando lembrar do encontro.