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30 setembro 2013

Sussurros ocultos — parte 1

Mais escuro.

O som das almas por vento, dentro do abismo a descer.

Apenas um único caminho, o eco lúgubre dos passos.

Mas não havia o peso do fardo, apenas a dança das sombras.


Sem muros, somente degraus.

De repente, tropeço. Mudança de direção. Escada a subir.

Só restava seguir.

A alma avessando, querendo entender.

Se bem ou mal, revirando o além.

Quase podia tocar o escuro, sempre o fundo de si.

— Até onde isto vai dar?

A resposta não demorou a surgir.

Logo, da entrada de uma caverna, a paisagem se abriu.

E, do alto, o peregrino viu.


Noite sem estrelas, montanhas sentinelas.

Vale florido, jardim de paraíso e, ao longe, clássicas colunas, escondendo um templo.

Beleza profunda, o ar em melancolia.

O peregrino sentiu calor.

— Pensava encontrar a dor.

— Ser perdido, seja bem-vindo.

Era uma voz baixa, quase um sussurro, que fazia uma fogueira em si nascer.

— Não sei quem és, mas eu queimo por você.


Ela pareceu flutuar até as costas do peregrino, suas palavras, próximas do ouvido, soando luxúria:

— Peregrino, eu sou o vento que alimenta a vela. O que a escuridão revela.

Fazia descer as costas de seus dedos pelos braços do errante, que mantinha a boca entreaberta, olhos fechados, sorriso de promessa, respiração de vontade:

— Eu estou em todos os lugares, eu estou em você, perdido dos caminhos. Eu sou o apelo silencioso, o olhar de calor, cheiros, desejos. Dos corpos, o movimento forte.

Ela ofereceu a mão pequena, macia ao toque. Dedos envolvidos:

— Vem comigo. Mostrarei o norte.

Suspiro, desceram, os olhos do peregrino querendo ver.

No meio do caminho, uma cadeira elétrica:

— Se procura a dor, tome seu assento.

— Não intento esta tortura.

— Junte-se a mim, das terras perdido. Meu mundo é diferente.

Mais instantes, e a grama acariciava os pés.

Havia uma fonte.

Aos montes, almas desnudas, correndo em volúpia.

Risos íntimos preenchiam o ar.

— O que tal lugar? Campos Elíseos? Dos deuses os escolhidos?

— Não obedeço as divindades, mas Eros também visita aqui.



O peregrino lembrou-se de Virgilio: "espera-lhe o caminho escuro".

— Não entendo. Por que seria escuro tal lugar?

— Ainda há aqueles que fazem sombra no prazer amar.

— Anjo da luxúria, sua voz agita o meu interior, como um caldeirão fervente.

— Então vem. Entregue-se de corpo e mente...


Breve, a continuação da saga.




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