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26 junho 2013

Pergaminho: Algo no escuro


Na floresta, as copas de luz e sombra murmuravam melancolia.

As folhas caídas farfalhavam-se com as botas do errante, também de cores desbotadas. Todas iguais no infortúnio.

Caminho perdido, tentava entrar em comunhão com o sentimento da mata.

Ela tinha sua própria estrada, percorrida por olhos invisíveis aos forasteiros: fadas e animais e bestas e duendes.

Protetores do verde? Criaturas do sonho e do pesadelo? 

Seja como for, não havia arco-íris sob o céu cinzento.

Não ergueria o olhar.

O peregrino pegou-se num suspiro, logo surgindo um pequeno sorriso ao lembrar-se do poeta Virgílio, o guia de Dante na mítica jornada ao inferno.

Inferno, purgatório, paraíso...

— Eles estão em mim. Mas Dante tinha Beatriz. 

Súbito,

O lobo na mata
uivando com o silêncio.
A folha imóvel.

O peregrino manteve um silêncio quase religioso, enfeitiçado sob o lobo. E então continuou, que a lembrança do chamado pairava ao redor...

Logo, um galho retorcido foi afastado para dar lugar a visão de uma clareira.

E uma casa caída enfiada em vegetação que um dia fora rasteira.

Os restos não se incomodavam com os passos do errante. Lareira apagada, boneca empoeirada, cama quebrada... cada objeto uma lembrança esquecida. As únicas flores vinham do papel de parede carcomido.

Em sua fantasia, quis pegar uma e oferecê-la a Francesa (como decidira chamar a mulher da projeção astral). O peregrino já imaginava o sorriso que a enfeitaria, quando —

— É tudo ilusão — e a voz sumiu no ar.

Pelo menos até o próximo cômodo.

Quando entrou:

— É tudo ilusão, viajante das terras.

O peregrino surpreendeu-se não com as palavras daquele homem que se sentava de frente a uma abertura de janela quebrada; não com seus cabelos de inverno e a postura decaída como a cadeira.

Surpreendeu-se porque ele não se virara em nenhum momento.

— Quem é você — pegou-se perguntando.

— Apenas um velho.

— Como sabe que sou um viajante, se nem ao menos se vira?

— Quem mais viria até aqui? E para onde vai, peregrino? — ainda sem se virar.

Mil pensamentos, mas:

— Não sei.

— Eu tenho uma sugestão. Mais além — e apontou para fora — existe um rio. Lá, mora uma sereia. Todos os dias eu desejo encontrá-la e ficar junto dela... mas não sei nadar.

— Irei até lá.

— Antes, fique com um presente.

Um longo pergaminho surgiu de seus farrapos, que escorregou dos dedos magros e fez mais poeira no chão.

— O que é isso — agachando-se.

— Um presente de um bardo — e calou.

O peregrino leu o título:

Algo no escuro...


Nota: Algo no escuro é um conto de fantasia medieval. Ebbel, um religioso ex-cruzado, ouve boatos sobre um pecador do povo haver alcançado a iluminação, e resolve investigar. O que ele descobre mudará sua vida. Baixe aqui.

18 junho 2013

Histórias das almas: "Não olhe pra trás!"

O céu era seu abrigo. O solo, seu colchão. Dormindo... e então, a projeção.

O peregrino sentiu a alma volitando.

Havia luz de céu azul, campos verdes. O cheiro da paz e primavera acariciavam-lhe, despertando pensamentos de sorriso enquanto se aproximava de um casarão branco.

Atravessou as paredes com facilidade. Sala vazia, decoração sóbria e elegante de século XIX.

No quarto com dossel, repousava um grande espelho, daqueles que são usados para trocar de roupa.

"Fantasma tem reflexo?", pensou.

Tinha.

Ali estava a sombra sob o capuz, em meio ao quarto sem tique-taque. Além da janela, apenas a lembrança do assovio dos pássaros.

Então, viu outro reflexo...

Não era homem ou sombra, mas uma mulher. Branca como todo o resto, sua presença não emanava violência. Ela parecia simplesmente fazer parte, tranquila como aquele lugar.

O peregrino resolveu arriscar:

— Onde estamos?

— Aqui é o sul da França.

Ele fez menção de se virar —

— Não olhe pra trás!

Estacou. Mesmo ordenando, não havia intenção hostil em sua voz melodiosa. Muito pelo contrário...

Tudo o que podia fazer era beber de seu reflexo no espelho: seus cabelos curtos, sua pele clara como o vestido, uma beleza clássica e agradável.

— Quem é você — ele quis saber, o peito começando a apertar.

— Não posso responder agora, meu errante.

Será que nunca teria suas respostas? Ou talvez seja —

— Como uma planta que, se regar demais, morre — concluiu o peregrino.

Em resposta, a mulher misteriosa pediu que fechasse os olhos.

Na sua escuridão, ele sentiu-a em seus lábios com carinho. Talvez aquela fosse uma vida passada e ela, alguém do seu coração.

— Ouça — a mulher sussurrou. — No seu caminho, almas irão te encontrar. Cada uma contará uma história. A história das almas. Por ora, eu devo lhe contar uma. Mantenha os olhos fechados.

— Esta é a história do "não olhe para trás"...

Uma imagem surgiu na mente do peregrino...


Nota: Don´t Look Back é um game gênero plataforma desenvolvido por Terry Cavanagh, com visual simples estilo Atari e boa trilha. Baixe-o gratuitamente no site do criador.

16 junho 2013

Poça d´água: Estas Tonne — The Song of the Golden Dragon

Silêncio no passo. Apenas o peregrino e o vento.

Céu sem estrelas, lua sem brilho, pedras no caminho.

E uma poça d´água.

Curioso, parou e, mesmo sem luz, olhou o reflexo:


Sorriu.

— Eis aí outro peregrino.

O portal


O portal alucinava os olhos e arrepiava a pele.

Mas, claro, havia o guardião.

O capuz sem rosto encarava em silêncio o peregrino, sua pergunta sussurrando na mente:

— Por quê?

À frente, magia e maravilha.

Mas o frio às costas não deixava esquecer a sombra e a escuridão do mundo.

Como dunas, as pegadas diáfanas ao sabor do passado, lembranças escuras.

— Não  pode entrar — disse o guardião-sombra. — Não descobriu o caminho.

O peregrino estava sozinho.

Não havia respostas. E não era ele quem as daria.

O peregrino ajeitou o manto, virou-se para trás, e andou.

11 junho 2013

Bem-vindo


Olá, peregrino.

Este blog irá tratar de literatura fantástica (técnicas, textos, links, resenhas, experiências) e diversos (humor, videos, imagens, músicas, e o que mais der na telha), com simplicidade e textos curtos, na medida do possível.

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