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26 dezembro 2017




“Na calma das noites silenciosas, aprendera a conhecer as estrelas.”

— Cammile Flammarion, “Estela”

03 dezembro 2017

A longa noite



Cruzes em floresta...
Muitas para contar.
Silêncio estelar,
numa noite sem estrelas.


O som dos passos
como única companhia.
Do peregrino a vida —
por vento o coração.

E então:

"Andarilho, o que faz
novamente aqui?
Cavar é minha lida:
os mortos respostas
não lhe trarão."

— De fato, coveiro.
Os que jazem
deixam silêncio
e saudade.

"E o aviso:
não desperdice
o caminho
a cultivar
vaidades."


— Será esta a verdade,
a calma do espírito?

"Deixe-me adivinhar:
está perdido.
Não sabe
aonde ir."

Em resposta,
sorriso de
olhos cabisbaixos.

"Vamos.
Caminhe comigo,
que preciso
de sua ajuda."

— Há alguém
que luta,
para o deleite
do corvo?


"Infelizmente,
meu amigo.
Mas ainda o sino
não dobrou
para ela."

— Coveiro,
não jogue a terra.
Ela não deveria
estar aqui.
Mostre-me o caminho.

"É por ali."


Ao abrir de olhos,
somente trevas.
Sensação fria
de pedra.

Pés e mãos
sentiam a rocha —
era uma caixa...


— Minha nossa!
Estou morta?
Me tirem daqui!

Rosto molhado,
silêncio e sufoco.

(Abandono...
O sussurro
do demônio.)

Suspiro:
— Eu sou o corpo.

(Conhecer a dor
de estar morto e,
ainda assim, morrer.)



"Peregrino,
acaso o sol
irá nascer?"

— Não. É uma longa noite.

"Que bom.
A ausência de luz
me traz prazer."

— Ora, coveiro,
não há versos no cemitério.

Tom grave:
"Venha, que estamos perto."

A visão do túmulo
calou os espíritos.


— Por que o caixão?
Sinto-a vivente.

A voz de dentro
batia o coração:

— Me deixem sair!
era o grito ardente.

— Eis-nos aqui,
ouvimos sua súplica.
Seu caminho é livre,
tu és lúcida.

(Nunca um estorvo.)

Mas antes, o peregrino:

— Afastem-se, corvos!


O bater de asas.
O crocitar, e logo,
o nada.

— Vamos, venha voar
comigo.

A tampa se abriu.
E o peregrino então viu.


Lágrimas desciam
suaves, sob olhos
à procura do universo.

A fisionomia agora
em leve melancolia.

Ao contemplá-la,
o peregrino emudeceu:
era a luz do dia.

— Tu não deverias
estar aqui.

A voz era doce e simples:
— Meu fardo é ainda ser assim.
A dor a nascer sem explicação.
Eu busco e busco — mas não!
Isolo-me, para não fazer sofrer.

— Tu és audaz em sua sombra,
mas não incomode
os mortos de espírito.
— Tu tens o infinito.
Teu templo é a vida.

(Queria fazê-la poesia.)

Tossiu o coveiro:
"Peregrino,
abade do abismo,
já despertou-a. Agora,
deixe-a em paz."

Mas tarde demais.

O peregrino aproximou-se
a tocá-la em carinho.

"Não!"

(Novamente, a ferida.)

— Meu caminho é livre.
Por que você insiste?,
era a resposta do olhar,
antes de tornar-se névoa.


— Ela em espírito
se desfez ao meu toque...
Voou para além do véu.
— Ah, como gostaria...

Mas o coveiro:
"Não fique triste.
É a vida.
Não sinta-se ao léu."


Já distante, o peregrino
a caminhar pelo abismo,
sozinho-suspiro.

Súbito, o sentir do vento.
A lembrança da névoa,
e o infinito dentro de si.

No espírito,
profundo sorriso:

— É uma longa noite.