Cruzes em floresta...
Muitas para contar.
Silêncio estelar,
numa noite sem estrelas.
O som dos passos
como única companhia.
Do peregrino a vida —
por vento o coração.
E então:
"Andarilho, o que faz
novamente aqui?
Cavar é minha lida:
os mortos respostas
não lhe trarão."
— De fato, coveiro.
Os que jazem
deixam silêncio
e saudade.
"E o aviso:
não desperdice
o caminho
a cultivar
vaidades."
— Será esta a verdade,
a calma do espírito?
"Deixe-me adivinhar:
está perdido.
Não sabe
aonde ir."
Em resposta,
sorriso de
olhos cabisbaixos.
"Vamos.
Caminhe comigo,
que preciso
de sua ajuda."
— Há alguém
que luta,
para o deleite
do corvo?
"Infelizmente,
meu amigo.
Mas ainda o sino
não dobrou
para ela."
— Coveiro,
não jogue a terra.
Ela não deveria
estar aqui.
Mostre-me o caminho.
"É por ali."
†
Ao abrir de olhos,
somente trevas.
Sensação fria
de pedra.
Pés e mãos
sentiam a rocha —
era uma caixa...
— Minha nossa!
Estou morta?
Me tirem daqui!
Rosto molhado,
silêncio e sufoco.
(Abandono...
O sussurro
do demônio.)
Suspiro:
— Eu sou o corpo.
(Conhecer a dor
de estar morto e,
ainda assim, morrer.)
†
"Peregrino,
acaso o sol
irá nascer?"
— Não. É uma longa noite.
"Que bom.
A ausência de luz
me traz prazer."
— Ora, coveiro,
não há versos no cemitério.
Tom grave:
"Venha, que estamos perto."
A visão do túmulo
calou os espíritos.
— Por que o caixão?
Sinto-a vivente.
A voz de dentro
batia o coração:
— Me deixem sair! —
era o grito ardente.
— Eis-nos aqui,
ouvimos sua súplica.
Seu caminho é livre,
tu és lúcida.
(Nunca um estorvo.)
Mas antes, o peregrino:
— Afastem-se, corvos!
O bater de asas.
O crocitar, e logo,
o nada.
— Vamos, venha voar
comigo.
A tampa se abriu.
E o peregrino então viu.
Lágrimas desciam
suaves, sob olhos
à procura do universo.
A fisionomia agora
em leve melancolia.
Ao contemplá-la,
o peregrino emudeceu:
era a luz do dia.
— Tu não deverias
estar aqui.
A voz era doce e simples:
— Meu fardo é ainda ser assim.
A dor a nascer sem explicação.
Eu busco e busco — mas não!
Isolo-me, para não fazer sofrer.
— Tu és audaz em sua sombra,
mas não incomode
os mortos de espírito.
— Tu tens o infinito.
Teu templo é a vida.
(Queria fazê-la poesia.)
Tossiu o coveiro:
"Peregrino,
abade do abismo,
já despertou-a. Agora,
deixe-a em paz."
Mas tarde demais.
O peregrino aproximou-se
a tocá-la em carinho.
"Não!"
(Novamente, a ferida.)
— Meu caminho é livre.
Por que você insiste?,
era a resposta do olhar,
antes de tornar-se névoa.
— Ela em espírito
se desfez ao meu toque...
Voou para além do véu.
— Ah, como gostaria...
Mas o coveiro:
"Não fique triste.
É a vida.
Não sinta-se ao léu."
†
Já distante, o peregrino
a caminhar pelo abismo,
sozinho-suspiro.
Súbito, o sentir do vento.
A lembrança da névoa,
e o infinito dentro de si.
No espírito,
profundo sorriso:
— É uma longa noite.
†









Nenhum comentário:
Postar um comentário