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22 fevereiro 2014

Apenas palavras

Eis o que é sabido:
apenas palavras não mudam o mundo.
Tampouco têm um poder proibido.

No entanto, não se entristeça, peregrino.

Porque, mesmo que venham dum profundo sussurro,
podem acender a chama da alma —
e, quem sabe —,
acariciar o vento dos idos.

Enfim, soprar a calma
do momento de um sorriso.


19 fevereiro 2014

Seether — Broken (Feat. Amy Lee)




Seether — Fine again




Fata-Morgana, das almas o prazer — final

Acompanhe a parte 1 e a parte 2.




Ao pisar nas areias da ilha:

"Bem-vindo, perdido do destino."

— Eu desafiei o vento.

Ainda com ele, espíritos:

— Conseguimos! Não afundamos nas águas.

Com o coração, o peregrino enxergava a praia.

Impulso de desenhar sons, mas nenhuma linha conseguiria desenhar o que via.

Pés roçando a areia.

O contato da pele. O ar leve.

Ondas acariciando os ouvidos.

— Mostre o caminho, voz qual sereia.

E então principiaram uma trilha, a fada, o peregrino e os espíritos.



Na floresta, o vento desenhava com folhas.

Elas caindo, uma na mão.

"Peregrino, por que o silêncio de solidão?"

"Não está sozinho, pegue a minha mão."

Ela se virou:

"E vocês, espíritos, volitem. Há muito para verem. Ide, e amai."

Quando os dedos entrelaçados, ele sentiu a magia.

Ela sorriu.

"No meu reino, você sente vida."


Mais adiante:

"Esta é a árvore da vida. Não é linda?"


O errante em silêncio para a copa-céu.

E uma coruja olhando-os de um galho ao léu.

"Ela vigia as letras entalhadas no tronco."

O peregrino pousou os dedos, encostou o ouvido:

Murmúrio verde, vermelho, cor do infinito.

Poeta sublime,
eis cá tua raposa, correndo solta
nos campos de flores.
Flores lavanda, flor alfazema;
que vira devagar, sopra um beijo
e foge.


Pois eis que por lá corre o poeta.
Persegue a raposa, almeja a raposa,
mas sem pressa, sem chegar.
Pára a cada flor meio amassada —
obra da raposa desastrada,
do seu coração fora do corpo,
de si próprio olhando a si.

— Lady Star

— É a história do cachorro e a raposa... Seus versos terminaram?

"Os dois se encontraram. Mas, como as estrelas do céu, é uma história sem fim."

— Não há fim, enfim, para o respirar forte do alguém em si.


O peregrino apertou o passo.

Além, murmúrio de cachoeira, escondendo uma caverna.

"Não entre nela!"

— Por que o grito?

"Você não tem o que é preciso para a gruta adentrar."

Da entrada, cantos baixos percorriam o úmido caminho e iam dar no peregrino.

— Morgana, como então entrar?

"Flauta e flor."

A melodia convidava promessas, deixava-o sem ar.


O peregrino corria como lobo no campo, atrás de chifres, patas, garras.

Eram os sátiros, que perseguiam as fadas.

Elas sumiam entre as belezas da ilha, sempre em movimento.

Sem momento para descanso, sem trilha.

Mas o errante apenas um perseguia.

Corria.

Corria.

Corria...

Sem fôlego para mais correr.

Por sorte, finalmente, sentado numa pedra, lá estava o Pan.

Porque apenas ele a flauta tinha.


A história era conhecida: os juncos cortados soavam suspiro-triste, ao pensar ser o corpo da ninfa Sírinx.

— Procuro o instrumento proibido, Pan.

Por que eu o daria a você? Acaso faz versos?

— Eu sou apenas um peregrino do universo.

— Desenho linhas com a tinta da alma. Letras calmas, mas com a intensidade do peito, corpo, vontade.

Pan lembrou-se de sua ninfa, e suspirou:

Tão grande saudade... Apenas sons invisíveis, viajante. Sempre distantes, sem resposta.

— Errado, ser da flauta. Mesmo que as letras se desvaneçam no ar, elas hão de ficar no respirar do peito, no som da boca, no movimento do corpo. No entorno da amada.

Eu só tenho esta flauta, murmurou.

Leve-a. E sorria a alma de quem quer bem.


"A flor sobre a montanha."

"Áster é o seu nome."

Somente no cume ela surge, e logo some.

— Quando os vaga-lumes tocarem o céu, estarei no topo.


O peregrino à própria sorte.

Na escalada, sem recursos.

Pé após pé, mão ante mão.

Abandonado, ninguém ao lado.

Quis respirar. Lembrou-se:

— Não olhe pra trás!

O mundo esquecido.

Em cada rocha, apoio, iminente perigo.

Apenas de si o auxílio.

Paciência na saliência, o dia soprando.

Finalmente, quando o crepúsculo, o topo do mundo.

O cume tocando as estrelas.


Ali, a saudade tocou o peito.

De solidão solar, silêncio.

O peregrino apertou o cenho para o reflexo-brilhar da noite.

Lembrou-se da flor:

— Áster é estrela em latim.

E lá estava ela, frágil, solitária, fragrância carmesim.


Enlevo ao tê-la entre os dedos.

Olhou para o infinito:

— Dama etérea, ela é para ti.

Naquele momento, o peregrino quis voar.

Assim, tomou da flauta e voou sons, esperando que a música puxasse as cordas da estrela o coração.


Da ilha, Fata-Morgana sorriu quando viu um cometa voar e sumir no céu:

"Desaparecendo de si, ele é Amor."




10 fevereiro 2014

Nox Arcana — Scarborough Fair




Fata-Morgana, das almas o prazer — parte 2

Acompanhe a parte 1.



—Fata-Morgana, das almas o prazer. Murmuro-te meu bem-querer.

"Eu tenho asas, mas elas não podem bater apenas para você, peregrino."

"Entenda, eu sou do destino a vampira."

Respondeu o andarilho:

— Ando quase sem alma, nas sombras da vida.

"Seus passos solitários não encontrarão guarida."

Mesmo assim, o peregrino se embevecia.

Desejava de seu sorriso a poesia e o caminho aonde levaria.

Ela sorriu:

"Transforme-se tu em Arte."


— Morgana, mas o que é a Arte, se não a saudade de algo a mais?

— O toque das almas, abrir fundo o peito.

Em resposta, ela soprou um beijo.

E o errante não conseguia esconder — contemplava-a como eterna primeira vez.

Os olhos ternos de Morgana brilhavam diferentes, e o peregrino despertava a nascente em si.

Vontade de estar perto.

Sentir o perfume da pele, os versos do corpo.

A carícia dos cabelos, delicada.

Estar perto, enfim. E não no deserto de si.

O peregrino suspirou:

— Eu não tenho o sentir desta época.

Sem pressa, Fata-Morgana mordia os lábios, deliciando-se na espera.

Reflexo da boca, úmido-vermelho.

No peregrino, arder intenso.

— Fada do destino, nesta noite, eu não quero os incertos momentos, ao caminhar sob o lamento do vento.

— Suspiro pelo beijo do destino.

"Perdido..."

"Venha comigo sonhar proibido."

"Atravesse o oceano do destino, e venha comigo."


No tormento, águas qual espelho, o céu sangrento.

Sem unguento para as feridas da alma, da mão ao remo.

No barco fantasma, o peregrino remava.


Firme propósito, o mesmo de todos os homens, com ou sem nome.

Mas o céu mudava.

As ondas gemiam as almas:

— Eu não vejo nada!

A névoa como inimigo para o tom do espírito.

Respondeu o peregrino:

— O papiro de Astréia indica o caminho!

Porque a luz das estrelas lhe era proibida. Para cima, não podia olhar. Mesmo assim:

Dama etérea.
Na distância do corpo,
as palavras se fazem presentes.
Elas são instantes,
grãos do infinito,
pedaços de momentos,
notas do espírito,
instantes do sempre.

Acima, a constelação da dama etérea sorriu.

Quis abraçá-lo com o calor das estrelas, brilhar-lhe o cometa.

Porque, mesmo que apenas palavras não mudassem das sombras o mundo, aquele era um tom do sonho mais profundo...


No pergaminho, a tinta da alma brilhou.

As brumas terminavam de chorar.

O peregrino apertou o olhar. Sussurrou com o intenso de si:

— Qual a cor da vontade, da saudade, do beijo, do desejo?

No horizonte, a ilha...


No véu entre os mundos, flutuava Fortuna, a ilha de Fata-Morgana.

Porto seguro, reino de ninfas.

Imortais fadas, senhoras da vida, da vara de condão.


Mas ainda não!, que esta história será contada...