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19 fevereiro 2014

Fata-Morgana, das almas o prazer — final

Acompanhe a parte 1 e a parte 2.




Ao pisar nas areias da ilha:

"Bem-vindo, perdido do destino."

— Eu desafiei o vento.

Ainda com ele, espíritos:

— Conseguimos! Não afundamos nas águas.

Com o coração, o peregrino enxergava a praia.

Impulso de desenhar sons, mas nenhuma linha conseguiria desenhar o que via.

Pés roçando a areia.

O contato da pele. O ar leve.

Ondas acariciando os ouvidos.

— Mostre o caminho, voz qual sereia.

E então principiaram uma trilha, a fada, o peregrino e os espíritos.



Na floresta, o vento desenhava com folhas.

Elas caindo, uma na mão.

"Peregrino, por que o silêncio de solidão?"

"Não está sozinho, pegue a minha mão."

Ela se virou:

"E vocês, espíritos, volitem. Há muito para verem. Ide, e amai."

Quando os dedos entrelaçados, ele sentiu a magia.

Ela sorriu.

"No meu reino, você sente vida."


Mais adiante:

"Esta é a árvore da vida. Não é linda?"


O errante em silêncio para a copa-céu.

E uma coruja olhando-os de um galho ao léu.

"Ela vigia as letras entalhadas no tronco."

O peregrino pousou os dedos, encostou o ouvido:

Murmúrio verde, vermelho, cor do infinito.

Poeta sublime,
eis cá tua raposa, correndo solta
nos campos de flores.
Flores lavanda, flor alfazema;
que vira devagar, sopra um beijo
e foge.


Pois eis que por lá corre o poeta.
Persegue a raposa, almeja a raposa,
mas sem pressa, sem chegar.
Pára a cada flor meio amassada —
obra da raposa desastrada,
do seu coração fora do corpo,
de si próprio olhando a si.

— Lady Star

— É a história do cachorro e a raposa... Seus versos terminaram?

"Os dois se encontraram. Mas, como as estrelas do céu, é uma história sem fim."

— Não há fim, enfim, para o respirar forte do alguém em si.


O peregrino apertou o passo.

Além, murmúrio de cachoeira, escondendo uma caverna.

"Não entre nela!"

— Por que o grito?

"Você não tem o que é preciso para a gruta adentrar."

Da entrada, cantos baixos percorriam o úmido caminho e iam dar no peregrino.

— Morgana, como então entrar?

"Flauta e flor."

A melodia convidava promessas, deixava-o sem ar.


O peregrino corria como lobo no campo, atrás de chifres, patas, garras.

Eram os sátiros, que perseguiam as fadas.

Elas sumiam entre as belezas da ilha, sempre em movimento.

Sem momento para descanso, sem trilha.

Mas o errante apenas um perseguia.

Corria.

Corria.

Corria...

Sem fôlego para mais correr.

Por sorte, finalmente, sentado numa pedra, lá estava o Pan.

Porque apenas ele a flauta tinha.


A história era conhecida: os juncos cortados soavam suspiro-triste, ao pensar ser o corpo da ninfa Sírinx.

— Procuro o instrumento proibido, Pan.

Por que eu o daria a você? Acaso faz versos?

— Eu sou apenas um peregrino do universo.

— Desenho linhas com a tinta da alma. Letras calmas, mas com a intensidade do peito, corpo, vontade.

Pan lembrou-se de sua ninfa, e suspirou:

Tão grande saudade... Apenas sons invisíveis, viajante. Sempre distantes, sem resposta.

— Errado, ser da flauta. Mesmo que as letras se desvaneçam no ar, elas hão de ficar no respirar do peito, no som da boca, no movimento do corpo. No entorno da amada.

Eu só tenho esta flauta, murmurou.

Leve-a. E sorria a alma de quem quer bem.


"A flor sobre a montanha."

"Áster é o seu nome."

Somente no cume ela surge, e logo some.

— Quando os vaga-lumes tocarem o céu, estarei no topo.


O peregrino à própria sorte.

Na escalada, sem recursos.

Pé após pé, mão ante mão.

Abandonado, ninguém ao lado.

Quis respirar. Lembrou-se:

— Não olhe pra trás!

O mundo esquecido.

Em cada rocha, apoio, iminente perigo.

Apenas de si o auxílio.

Paciência na saliência, o dia soprando.

Finalmente, quando o crepúsculo, o topo do mundo.

O cume tocando as estrelas.


Ali, a saudade tocou o peito.

De solidão solar, silêncio.

O peregrino apertou o cenho para o reflexo-brilhar da noite.

Lembrou-se da flor:

— Áster é estrela em latim.

E lá estava ela, frágil, solitária, fragrância carmesim.


Enlevo ao tê-la entre os dedos.

Olhou para o infinito:

— Dama etérea, ela é para ti.

Naquele momento, o peregrino quis voar.

Assim, tomou da flauta e voou sons, esperando que a música puxasse as cordas da estrela o coração.


Da ilha, Fata-Morgana sorriu quando viu um cometa voar e sumir no céu:

"Desaparecendo de si, ele é Amor."




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