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23 setembro 2013

O caminho de Virgílio

Da nossa vida em meio da jornada
Achei-me numa selva tenebrosa
Tendo perdido a verdadeira estrada.

— Dante Alighieri, Divina Comédia, Canto I


Dia, sol, calor, conforto.

Quente, passos, do sorriso o contorno.

Luz da areia, o vento soprando promessas em silêncio da esperança que espera.

Desejo a cada passo, não mais sozinho, mas sim a saudade, a vontade do coração de estar mais perto.

Porém, no deserto do infinito, sempre a lembrança do abismo — mesmo sob a luz do mundo, o profundo mergulhar em si.

— Não se encante com a luz, peregrino. Ela ainda não é para ti.

— Virgilio?! — ajoelhando-se em reverência, cabeça baixa.


— Levanta-te, que não sou realeza, tampouco sombra. Sou o que sou.

— Poeta da era dos gládios, não sei como dizer, mas já estou sob a tutela de Astréia, estrela de Virgem.

— Tal já me foi dado conhecer. Ela irá inspirá-lo em seu destino.

Virgílio então gesticulou, e um buraco se abriu.

— Mais fundo você deve ir.

— O inferno, mais uma vez?

— Tu sabes que, em época acuada, guiei um florentino pelo portal da angústia. Os círculos de sofrimento calaram fundo em sua alma, a ponto da jornada ser talhada em versos de cantos.

— Espanto sua presença me causa. Conduzir-me-á pelo Limbo?

— Meu ofício foi apenas abrir o abismo. Porque o tempo fez sombra das palavras de Dante.

— Nada é como antes — entendeu o peregrino.

— Entenda, a jornada da vida não tem fim. Não há estrada reta ou caminho estreito. Os ramos da árvore do Universo assomam em todo lugar.

— Era houve em que Roma foi a glória e luz do mundo. Mas a poeira do tempo sempre sopra: lugares e entidades assumiram-lhe o estandarte, cada qual com sua Verdade. Mesmo assim, em meu caminhar, nunca conheci criatura ou homem ou deus ou palavra que me levasse, de fato, a ela.

— Então não há verdade, Virgilio? — e a tristeza no peito a apertar. Continuou:

— Se não há verdade, o que há além da eterna selva tenebrosa? Suas palavras matam-me a esperança, luminar, e me aumentam o desterro. Uma vez morta, ela não volta mais.

— Mas o que é a verdade, peregrino, senão o eterno caminhar? 

— Não sei se consigo pular em tal lugar — murmurou o errante, forçando o olhar para baixo no buraco.


— Teologia, metafísica, as disputas dos de meu tempo, o alento das escrituras de fé, e da ciência o conhecimento... Lampejos de algo a mais, das estrelas, do imponderável. A intuição no silêncio vem como o sussurro do vento nas folhas.

— O abismo não é a minha escolha.

— O calor do dia não deve envolvê-lo, por ora. E, mesmo se a luz o alcançasse, lembre-se que o prisma brilha em todas as cores, e em nenhuma. Não há separação em pólos, não há branco ou preto ou cinza.

— Sobrepuje sua natureza. Não seja como uma criança risonha com uma pedra bonita. Mesmo os louros na fronte do orgulhoso Apolo eram lágrimas de Dafne, tornada árvore.

Silêncio no peregrino.

— O vale abaixo faz parte de mim — concluiu.

— Desça. Observe. Ouça. Seja e persista. Compreenda. Sempre na medida de seu conhecimento, que muda como as marés, carícias de Hera.

— Entenda, a era das parábolas obscuras já passou. O sentido das palavras não deve ser duro, não mais do que o peito dos que gemem. Queime a chama do mundo em si, tal como o sentimento de uma antiga alma, ao buscar um poeta perdido no meio do caminho.

— Peregrino, além desta passagem, espera-lhe o caminho escuro. Cumpri o meu dever, mais uma vez. És teu senhor agora. Nada mais tenho a acrescentar.


"Não mais te falo, nem te aceno, entanto;
Possuis vontade livre, (...)
Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,
Pois de ti és senhor" (...)

O peregrino então acalentou imagens no coração, e sorriu para a escuridão.

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