A coruja pousou no galho.
No de baixo, o magote de rebentos,
atentos para as palavras.
O vento fazia ondular as folhas
como um mar calmo.
— A alma tem a cor do olhar.
E é sobre os olhos de um cachorro
que vou contar, ao ver a raposa
que fez sua alma respirar.
†
Era uma vez um cachorrinho.
Ele era pulguento, mas não sozinho.
Pelos campos e florestas com a matilha
andava, iguais a eles todos.
Todos os dias, as mesmas coisas:
acordar ao sol nascer, caçar, comer,
brincar de brigar, dormir ao sol sumir.
E, quando muito cheiro insistente, banho.
Foi em uma dessas fungadas diferentes
que a viu, lá longe, nas águas do rio.
Os outros latiram a concordar:
— Uma amiga pra brincar!
Mas não o pequeno cachorro.
Por que bebia, ali da árvore,
as gotas brilhando saudade
antes de pingarem.
E os pêlos...
Fios com a cor
do sol se escondendo.
Então o pequenino
cheirou-se todo:
todo sujo, lambido,
preto, desgrenhado.
Rosto de tolo,
ficou sentado,
escondeu-se mais.
No silêncio da contemplação,
súbito, o outro olhar
alcançou sua direção.
Aquilo fez seu peito parar.
A alma tem a cor do olhar.
O cachorro fora do tempo.
Naquele momento, apenas
perdido nos olhos
da cor do infinito...
Os vaga-lumes altos do céu
não causavam mais o mesmo silêncio.
Foi com tormento que o cachorro percebeu —
ele era pulguento, e agora era sozinho.



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