Páginas

30 dezembro 2013

O cachorro e a raposa — parte 2

 Acompanhe a parte 1.

† 


O som do vento...
O cão bebendo
a água do rio.

O vento frio
no pêlo molhado.
Ninguém ao lado,
desta vez.

— Talvez,
se aqui
a raposa estivesse...

Chacoalhando,
gotas na folha.
Orvalho.

Voz da coruja:
— Na relva, o orvalho
é a visão do passado.

Brilhou os olhos como o céu.
Quis ver, não conseguiu.
Sozinho ao léu.
Esparramou em gotas o rio.


Chovia.
Cada pingo trazia
lembrança e sorriso
daquele dia no rio.

E então,
olhos fechados,
batia o peito mais forte.

Era onde, sem perceber,
a raposa fazia toca.

O cachorro olhava
para a floresta e
se perguntava:
onde ela estava?
Mas não sabia dizer.

Peito doendo e sorrindo,
levava-a consigo.



O tempo passando,
os pêlos crescendo,
o vislumbre dos dias.

Logo, ele a sentia
no desabrochar da flor.
Na carícia do vento.

Pelos campos corria.
Sempre quieto,
ele a sentia.

O farfalhar das folhas,
companheiras dos passos.

Dormindo sob o tronco,
ela estava ao lado.

O murmúrio do riacho
acariciava o coração.

Suspirava pelo toque
de um momento.
Guardava silêncio...


Noite.
Seus olhos refletiam
os vaga-lumes.

E então, foi ali,
no silêncio de si,
que o cachorro descobriu —

Que o amor, o muito verdadeiro,
batendo bem fundo lá no peito,
está além do tempo.

Como o olhar de um momento.

Fechou os olhos.
Naquela noite, conseguiu voar.

— Agora, eu a posso
encontrar.
Não custa tentar.


Nenhum comentário:

Postar um comentário