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14 novembro 2013

Histórias das almas: o jardim secreto


— Este é o jardim secreto — disse o coveiro, capuz descoberto.

O peregrino não entendeu:

— Ora, mas é um cemitério!

Mais um punhado de terra o buraco desceu.

Ele então parou, apoiado na pá, olhos brilhantes para diante.

— Aí que você se engana. Aqui nascem esperanças.

O peregrino olhou para o céu escuro e, num murmúrio:

— Alto demais o muro...

— Tolo. Você chora a noite dos caminhos.

Na cova, o cadáver disse num sorriso deturpado:

— Palhaço!


O peregrino desconcertado. Em silêncio, continuou a ouvir:

— No meio da própria treva, grita seu interior.

— Conheço a dor em mim... — fechou os olhos.

E lá estava da alma o jardim.

A brisa-éter, o céu estrelado, flores em fragrância.

Do murmúrio da fonte, a ânsia.

A água transbordando, encobrindo o mundo...

...E, no oceano, barco solitário sem reflexo nas águas.

— O céu está vazio.

Distâncias frias, vozes não respondidas.

— Alegrias?

Sim!, pensou o errante, com o profundo do coração.

— Não. Apenas vaidade, peregrino...

— Errado, espírito da desilusão.

— Redenção?

— Não procuro as divindades.

— Saudades o movem.

— Mas não dos que aqui estão.

O coveiro sentou-se, querendo assistir.

— Então, para onde ir?

— Não sei, em verdade... Apenas sinto a chama queimar em mim.

— Você quer volitar na noite do tempo.

O peregrino sentiu, em cada fibra, a dama etérea em si, e perguntou:

— Qual o tempo certo do Universo?

Uma gargalhada surgiu:

— Ora! Se eu soubesse, acha que estaria aqui?

Aperto no peito:

— Qual então a verdade do coração?

— Sou apenas sombra.

— Você diz com o egoísmo da alma.

O cadáver deu de ombros.

— Olhe para os lados. O que você vê?

— Lápides, florestas de cruzes.

— Luzes?

— Não.

— Então!

— Aqui nascem esperanças... — novamente o coveiro.

— Não ligue pra ele — veio o riso da cova.

— Peregrino, o vento sopra para quem está sobre a terra. Voe com o corvo no oceano do destino.

— Sou apenas uma gota em tal mar.

— Volte para o jardim da alma. O que vê?

— Escombros.

— Imbecil!

— Não. As águas baixaram — disse o coveiro.

— Eu vejo o vento beijar a árvore, o lamento das folhas molhadas. Eu vejo ninhos vazios, o ar em saudades.

— Não é um vale esquecido, guardião dos caminhos. Olhe para o chão.

O peregrino obedeceu, e viu.

Não havia céu, estrelas. Não havia o tempo.

Porque ali, no lago do jardim, respirava uma flor...


Qual o tempo certo do Universo?

— Não tem idade a emoção...


Veio um beija-flor.

O orvalho refletindo o profundo do infinito.

E, nos olhos, a imagem de estrela.


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