— Este é o jardim secreto — disse o coveiro, capuz descoberto.
O peregrino não entendeu:
— Ora, mas é um cemitério!
Mais um punhado de terra o buraco desceu.
Ele então parou, apoiado na pá, olhos brilhantes para diante.
— Aí que você se engana. Aqui nascem esperanças.
O peregrino olhou para o céu escuro e, num murmúrio:
— Alto demais o muro...
— Tolo. Você chora a noite dos caminhos.
Na cova, o cadáver disse num sorriso deturpado:
— Palhaço!
O peregrino desconcertado. Em silêncio, continuou a ouvir:
— No meio da própria treva, grita seu interior.
— Conheço a dor em mim... — fechou os olhos.
E lá estava da alma o jardim.
A brisa-éter, o céu estrelado, flores em fragrância.
Do murmúrio da fonte, a ânsia.
A água transbordando, encobrindo o mundo...
...E, no oceano, barco solitário sem reflexo nas águas.
— O céu está vazio.
Distâncias frias, vozes não respondidas.
— Alegrias?
Sim!, pensou o errante, com o profundo do coração.
— Não. Apenas vaidade, peregrino...
— Errado, espírito da desilusão.
— Redenção?
— Não procuro as divindades.
— Saudades o movem.
— Mas não dos que aqui estão.
O coveiro sentou-se, querendo assistir.
— Então, para onde ir?
— Não sei, em verdade... Apenas sinto a chama queimar em mim.
— Você quer volitar na noite do tempo.
O peregrino sentiu, em cada fibra, a dama etérea em si, e perguntou:
— Qual o tempo certo do Universo?
Uma gargalhada surgiu:
— Ora! Se eu soubesse, acha que estaria aqui?
Aperto no peito:
— Qual então a verdade do coração?
— Sou apenas sombra.
— Você diz com o egoísmo da alma.
O cadáver deu de ombros.
— Olhe para os lados. O que você vê?
— Lápides, florestas de cruzes.
— Luzes?
— Não.
— Então!
— Aqui nascem esperanças... — novamente o coveiro.
— Não ligue pra ele — veio o riso da cova.
— Peregrino, o vento sopra para quem está sobre a terra. Voe com o corvo no oceano do destino.
— Sou apenas uma gota em tal mar.
— Volte para o jardim da alma. O que vê?
— Escombros.
— Imbecil!
— Não. As águas baixaram — disse o coveiro.
— Eu vejo o vento beijar a árvore, o lamento das folhas molhadas. Eu vejo ninhos vazios, o ar em saudades.
— Não é um vale esquecido, guardião dos caminhos. Olhe para o chão.
O peregrino obedeceu, e viu.
Não havia céu, estrelas. Não havia o tempo.
Porque ali, no lago do jardim, respirava uma flor...
Qual o tempo certo do Universo?
— Não tem idade a emoção...
†
Veio um beija-flor.
O orvalho refletindo o profundo do infinito.
E, nos olhos, a imagem de estrela.


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