Acompanhe a parte 1.
†
O peregrino, enrolado
no manto escuro,
fechado em si
para ouvir.
Cabeça baixa:
— Conte-me o que lhe
vai no interno mundo,
que não sairei daqui.
O homem deu
um longo suspiro.
†
Era uma vez
apenas um alguém.
Na noite dos caminhos,
passo após passo,
procurando além.
Ao sentir dos ermos,
contemplação —
o respirar das folhas,
o bater de asas...
Nada a dizer
sob a suave brisa.
O concerto-piar
cantava a vida
(alto acima).
Mas o homem
não entendia.
Logo, anoitecia.
O sol caindo,
das sombras o conforto...
Escuro entorno.
E ele
sentado, calado,
ainda quieto.
Estava ali,
pelas estrelas assistido.
Foi quando
encontrou um sorriso:
— Perdido,
o que aqui faz aqui,
longe do dia,
da vida?
(Aquela voz...
sussurro suave
de flor ao vento.)
Arrepiou-se
por um momento.
O tempo parou.
E então,
coragem para contempar —
a cor do Universo
dançava em seu olhar.
("Ah, e como queria perder-me lá!") —
rosto de poesia,
de carícia meiga e profunda...
Ele conseguiu apenas
apontar a lua.
Dela, mais um sorriso.
— Perdido,
espero que encontre
o que procura.
Disse e, semblante sereno,
ficou o céu a contemplar.
Ele, no entanto,
não queria o
firmamento olhar.
Porque,
naquele instante,
impulso profundo
de tocá-la com os
lábios, alma,
segurá-la a mão.
O coração
no silêncio da
falta de jeito...
Fechou os olhos,
suspirando ficar
em seu sorriso, guardar
aquele momento.
†
Palavras em tom
de arrebatamento:
Entenda, peregrino,
antes daquela noite,
eu não era poeta.
E ela era poesia.
†
Com a luz do dia,
o (agora) bardo
tomou da lira.
Queria transpor
da inspiração o portal.
— Afinal, haveria mal
em tocá-la do coração
as cordas?
Queria dá-la
um presente,
mostrar o que sente.
— Mas onde as notas?
O bardo procurou
na mais alta montanha,
cume-sobre-o-céu.
Ali, no mistério
do véu, meditou —
e apenas tremeu
para o hálito das alturas.
Dura descida até os campos.
Sem resposta, tanto, tanto
a caminhar.
Não dedilhava
de Orfeu a harpa;
no entanto, buscava...
Havia de encontrar!
†
A chuva acariciava
das flores os campos,
meigas, delicadas, belas.
No olhar, o bardo
trazia o rosto dela,
enquanto procurava
palavras ternas.
Primavera na jornada,
abraçava a beleza
do amanhecer.
Ele tentou entender,
buscou versos.
Circunspecto,
silêncio e solidão nos caminhos,
apenas o bater do coração
indicava o infinito.
Cidades, paisagens...
(Saudades.)
Palavras, notas da alma...
(Verdades?)
†
Ao findar do dia,
alma muda
pelo caminhar.
A luz da lua
ficou a contemplar.
Suave claridade
penetrou-lhe
a alma.
Mas a calma
da noite, então,
ao coração
trouxe dor.
Porque o trovador,
num repente
mais que de repente,
penetrou a semente
da verdade:
O sentir da bela
não era por ti;
a espera dela
brilhava sobre o céu.
Ali, onde as estrelas
eram versos
do Universo.
†
— Peregrino,
o peito dela batia
pelo infinito,
e não por mim.
†
Foi assim que
o bardo (agora calado),
percebeu o egoísmo
que nutria.
Sorriu.
E, olhos sonhadores,
ficou o céu a contemplar.
Sentiu algo brilhar:
— Quero tornar-me luz,
estar lá.
Encontrá-la um dia,
e presentear da alma
a poesia.
†
Não é um triste
conto, enfim,
pensou o peregrino,
já longe dali.
†
Outras noites
sopraram.
O que aconteceu
com o espírito
do bardo,
o errante não soube.
No entanto,
certa noite...
Quando também
sob o firmamento
meditou...
O peregrino arregalou
o olhar...
E sorriu ao encontrar
de estrelas
um outro par...
†








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