— Fique e escute... —
disse o homem.
O peregrino sempre
no silêncio do espírito.
Por que motivo
me importaria
a sua sina, alma?
Deixe-me aqui,
a contemplar
as noturnas vagas.
Desenhos na areia,
grãos nas mãos.
Mais um que amarga
da colheita a solidão?
— Miserável homem que sou.
Quem me livrará do corpo
desta morte?
Tu já és alma,
embora não inocente.
Não desafie a sorte —
negar-se a si,
não tente.
O homem não se deu
por vencido:
— Escuridão e esperança,
ser dos caminhos.
É o que sou.
Soturno como
a terra sem luz,
o andarilho
apenas o olhava,
sob o capuz.
De certo demônio,
me vem a lembrança...
— Tal me é familiar?
Ele vem de outro mar...
Desdenhava da luz,
regozijando-se, irônico e estoico,
em sua sombra.
Para os viventes
possuía tão somente
o profundo silêncio.
Sombra de um sorriso:
Há muito, a noite
me faz guarida.
Gostaria de voltar à vida,
ver a luz.
E, num suspiro:
Pois bem, mártir,
qual a sua narrativa?
†
— Há muitas vidas,
peregrino,
eu era da guerra.
— O chamado do combate,
a via do guerreiro
gritava forte n´alma.
— Desde tenra lembrança,
o erguer da lança.
— Aos gritos de Alexandre,
o conhecer do mundo,
a estrada vermelha.
— A visão estreita,
até o próximo inimigo.
— Sob a águia da legião,
a parede de escudos,
a marcha para dominar.
(César caído,
aonde ir?)
(Pois a besta,
num reflexo de espelho,
a sorrir.)
— Em nome de Deus,
brandi espada,
nas ameias das
(Mas a cimitarra
foi mais rápida.)
— A fumaça
dos mosquetes
impedia a visão.
— Divina comédia —
passei sem ver
Napoleão.
Os aviões
levavam a guerra
a distantes rincões.
Em minha trincheira,
amargava, amargava o nada...
†
— Conflito após conflito,
sempre o medo e abismo.
— Esta é a minha história,
peregrino.
Conheço o umbral
a sussurrar,
guerreiro perdido.
Mas o que o fez mudar?
O homem brilhou o sorriso:
— Veja, ela está lá.
†
Pelas estrelas do céu,
quem é ela?
— Nunca vi mais bela.
Verso do etéreo...
Acaso trazida pela
graça do oceano?
— Como saberia? Não permanecem as águas
serenas em sua tristeza?
Ora, por que não se aproxima?
(mas o peregrino já sabia
a resposta.)
— Veja: não estão abertas
as portas da realidade.
— Eu sou noite,
tão somente.
Espírito do abismo,
muito além da luz.
— Ela é vivente.
Como poderia
ouvir-me os versos?
— Ah, tão perto...
e tão longe,
qual estrela cadente.
O que ela faz
nestas areias?
— Acredito que esteja
à procura de si mesma,
a folhear, em contemplação,
o livro do universo.
Decerto não possui
apenas o dia em
seu sentir.
— Sim...
mas que ventura seria
o brilhar do sol
em seus cabelos;
a luz da lua
em seu olhar.
— Ah, queria estar lá...
— Tenho aprendido
com sua presença serena...
Ao contemplá-la,
a alma plena
da verdade do coração.
— Seu olhar pensativo
cala-me fundo no espírito,
despertando-me o infinito —
como o firmamento
que procura.
— Ela é vivente.
Mas se encontra em
sintonia diferente.
†
— Ai de mim, peregrino.
— Ela me faz poeta.
E, no entanto,
não ouvirá
as batidas de meu peito,
a falta de jeito.
— A alma em tormento
por não conseguir expressar...
†
No homem,
da palavra o fim
em melancólico sorriso.
Após longo silêncio,
o peregrino:
Talvez haja um jeito
de se fazer ouvido.
— Diga-me como,
andarilho, que eu
sonho na sombra.
As ondas
sussurravam saudades.
— Como encontrar
eco em tal enigma
de alma?
A busca da vida,
a verdade do coração?
— Mas o que é a verdade,
se não o eterno caminhar?
Ouça-me, amigo:
quando o sono a fizer abrigo,
cante seus versos,
fale do infinito.
Faça-a voar.
E então, talvez,
seja-lhe dado conhecer
o mistério que se esconde
em tal querer.
†
Já distante,
o peregrino caminhava
pelo abismo.
Não havia ficado
para assistir
ao presente em versos.
Mas qual seria o porvir?
Lembrou-se das palavras
do guerreiro perdido,
à despedida:
— Vive sempre nesta escuridão?
Minha luz é íntima.
Agora, devo partir.
†












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