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27 julho 2014

Além do além

Mais uma vez,
o peregrino virou espírito.
Do abismo, em vôo mudo,
foi ter no mundo.

Ao transpor
do céu escuro,
o gemido dos esquecidos
tremia lembranças:
fogo e mito, do mundo o sussurro...

Apenas ânsias.

E então, desejo de asas,
(voar ao nada?)

Mas não havia amém.

O que esperava além do além?

† 


Acima dos prédios,
o tédio do mundo.
O peregrino
piscou enfado.

Cansado de si,
das sombras do mais profundo.
Ao olhar acima:
— Os céus estão vazios.

Naquela hora,
aperto no coração —
a angústia do solitário...

"Não chore.
Sei que está acostumado."
— De quem é esta voz torpe?
"Apenas um observador
da comédia dos viventes."


Nas ruas, luzes, barulhos,
pensamentos em vozerio.
O suspiro veio triste:
— Tanto vazio...

"Sempre os mesmos erros...
Pensamentos cegos,
vã vaidade, ego..."
— Mas também saudade,
sorriso, carinho.
"...E corações esquecidos."

O errante não
se deu por vencido:
— Vamos, sombra.
Venha voar comigo.

"Ora, por que estar lá?
Não quero descer.
Este é o meu Olimpo;
não tenho mais inimigas ilusões."

Sem paixão...,
pensou o peregrino.
E então:
— Venha, somente,
deslizar entre os viventes.


"Fascinação na vida?
Por que tentam pintar o cinza?
Olhe estas terras sombrias."

Estavam entre risos de festa.
Álcool, a aberta porta.

— Os demônios fugiram
porque não tinham respostas.


"Deixaram os tolos em suas conchas.
Mimados pela vida,
sem passado, sem futuro."

O peregrino suspirou:
— Somos sombras e gritos mudos?



Na missa, o padre
saboreava o sangue
do Cordeiro, pelas ovelhas.

"Igreja!" bufou o espírito.
"Não há regozijo bíblico!
Somente um paraíso negro!
Ah, Igreja..."

"Buscam da vida o mistério
em páginas antigas.
Mas todas terminam
no cemitério."

— Não são perdidos.
Não como nós, acredito.
"Todos estamos sozinhos."

Das velas, as chamas
dançavam sombras.


"Peregrino! Venha ver!
Este vai pular!"

Condenado por si mesmo...

"Este é um antigo guerreiro,
soldado de muitos campos.
Agora, tem medo da própria vida."

O silêncio dos mortos por companhia...,
pensou o peregrino, enquanto,
sem paixão, o via cair.


"Agora você vê, peregrino?
Somos Hades."
E então, de repente,
quanta saudade...

Mas do quê?
Não saberia dizer.


O céu escuro.
O peregrino e o espírito,
sentados ao lado.

— A noite da alma...
"A falsa calma."

— Vá embora, carrasco,
vulto condenado.
"Mostro apenas a realidade."

— Não preciso de
sua sensibilidade.
"Ora, tu quem me chamaste,
caminhante do cio."

"Vamos, crie suas próprias formas,
pinte sua porta.
Sorria colorido.
Não é assim que fazem o infinito?"

"Eu vejo a morte nas coisas,
a verdadeira forma da vida.
A si, não se minta: somos tempestade,
redemoinho às margens da realidade."

E então, soprou-se longe, e sumiu.

— Encontrará você seu caminho?



Ainda morto entre os vivos,
o peregrino quis mais um pouco
voar sozinho.


Sobre as águas,
o vento em bálsamo.
Sensação de infinito.

De repente, ali,
mais além, alguém.

Sentada, sozinha.
Bela, rosto de poesia.


O peregrino parou em seus olhos
de reflexão serena e profunda.
Distante, observou-a muda.
Tocava-a com o olhar.

Quis o tempo parar...

Do lado, um chocolate.

"— Quer um pedaço?"
Engasgo:
— Você me vê?!
"— Venha, sente-se ao lado."
O caminhante fechou os olhos,
querendo esquecer o antes.

E então, do fundo de si,
nasceu um sorriso:
— Aqui é o paraíso?

Ela deu de ombros.
Ele sorriu:
— Que bom que estás aqui.








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