Mais uma vez,
o peregrino virou espírito.
Do abismo, em vôo mudo,
foi ter no mundo.
Ao transpor
do céu escuro,
o gemido dos esquecidos
tremia lembranças:
fogo e mito, do mundo o sussurro...
Apenas ânsias.
E então, desejo de asas,
(voar ao nada?)
Mas não havia amém.
O que esperava além do além?
†
Acima dos prédios,
o tédio do mundo.
O peregrino
piscou enfado.
Cansado de si,
das sombras do mais profundo.
Ao olhar acima:
— Os céus estão vazios.
Naquela hora,
aperto no coração —
a angústia do solitário...
"Não chore.
Sei que está acostumado."
— De quem é esta voz torpe?
"Apenas um observador
da comédia dos viventes."
Nas ruas, luzes, barulhos,
pensamentos em vozerio.
O suspiro veio triste:
— Tanto vazio...
"Sempre os mesmos erros...
Pensamentos cegos,
vã vaidade, ego..."
— Mas também saudade,
sorriso, carinho.
"...E corações esquecidos."
O errante não
se deu por vencido:
— Vamos, sombra.
Venha voar comigo.
"Ora, por que estar lá?
Não quero descer.
Este é o meu Olimpo;
não tenho mais inimigas ilusões."
Sem paixão...,
pensou o peregrino.
E então:
— Venha, somente,
deslizar entre os viventes.
†
"Fascinação na vida?
Por que tentam pintar o cinza?
Olhe estas terras sombrias."
Estavam entre risos de festa.
Álcool, a aberta porta.
— Os demônios fugiram
porque não tinham respostas.
"Deixaram os tolos em suas conchas.
Mimados pela vida,
sem passado, sem futuro."
O peregrino suspirou:
— Somos sombras e gritos mudos?
†
Na missa, o padre
saboreava o sangue
do Cordeiro, pelas ovelhas.
"Igreja!" bufou o espírito.
"Não há regozijo bíblico!
Somente um paraíso negro!
Ah, Igreja..."
"Buscam da vida o mistério
em páginas antigas.
Mas todas terminam
no cemitério."
— Não são perdidos.
Não como nós, acredito.
"Todos estamos sozinhos."
Das velas, as chamas
dançavam sombras.
†
"Peregrino! Venha ver!
Este vai pular!"
Condenado por si mesmo...
"Este é um antigo guerreiro,
soldado de muitos campos.
Agora, tem medo da própria vida."
O silêncio dos mortos por companhia...,
pensou o peregrino, enquanto,
sem paixão, o via cair.
"Agora você vê, peregrino?
Somos Hades."
E então, de repente,
quanta saudade...
Mas do quê?
Não saberia dizer.
†
O céu escuro.
O peregrino e o espírito,
sentados ao lado.
— A noite da alma...
"A falsa calma."
— Vá embora, carrasco,
vulto condenado.
"Mostro apenas a realidade."
— Não preciso de
sua sensibilidade.
"Ora, tu quem me chamaste,
caminhante do cio."
"Vamos, crie suas próprias formas,
pinte sua porta.
Sorria colorido.
Não é assim que fazem o infinito?"
"Eu vejo a morte nas coisas,
a verdadeira forma da vida.
A si, não se minta: somos tempestade,
redemoinho às margens da realidade."
E então, soprou-se longe, e sumiu.
— Encontrará você seu caminho?
†
Ainda morto entre os vivos,
o peregrino quis mais um pouco
voar sozinho.
Sobre as águas,
o vento em bálsamo.
Sensação de infinito.
De repente, ali,
mais além, alguém.
Sentada, sozinha.
Bela, rosto de poesia.
O peregrino parou em seus olhos
de reflexão serena e profunda.
Distante, observou-a muda.
Tocava-a com o olhar.
Quis o tempo parar...
Do lado, um chocolate.
"— Quer um pedaço?"
Engasgo:
— Você me vê?!
"— Venha, sente-se ao lado."
O caminhante fechou os olhos,
querendo esquecer o antes.
E então, do fundo de si,
nasceu um sorriso:
— Aqui é o paraíso?
Ela deu de ombros.
Ele sorriu:
— Que bom que estás aqui.
†









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