Apreciava o peregrino
o silêncio da solidão.
Pela escuridão deslizava,
espectro de si.
Calmo para a dor
que sussurrava em sua via,
há muito tempo distante
da luz do dia.
Guardava o errante
a memória distante,
de quando a alma
sorria sem jeito.
E então, logo veio
o peito a suspirar —
pois, sob a vista,
céu sem estrelas...
(Luz de cometa no coração?)
Nas sombras da noite,
pensamentos insones.
Errava o peregrino,
tal qual esquecido Caronte.
†
Olhos fechados.
Um respirar profundo.
Veio o sussurro:
Aquiete-se o coração,
deixe-o mudo.
De galhos o estalar.
— Quem vem, nas sombras
a deslizar?
Sou Lilith...
— Senhora dos demônios.
Mãe da Lua.
— Dama da alma nua.
E caminhante do abismo.
— Sou apenas um peregrino.
Quis o destino ter contigo.
— Ainda não sou um vivo imortal.
Que mal importa?
— Não. Não é minha hora,
que acabo de voltar do abismo,
novamente.
Venha comigo, tão somente, corvo da noite.
E então, nas sombras
uma vez mais penetraram,
o demônio e o vivente.
†
Feche os olhos.
Mas ele não queria o entregar de si.
Porque ali, a alma,
ao contemplá-la,
brilhava diferente.
O que você sente?
Poesia sem palavras.
"Apenas quero beijá-la." — pensou.
Peregrino,
nunca se esqueça do Amor.
Calou-se com a resposta.
Veja, no limite do Umbral,
o portal do infinito.
— Certa vez, tive interdita
a entrada.
Ela sorriu.
Ora, caminhante...
Ainda não entendeu da chave
o mistério?
Venha, que estamos
chegando perto.
†
Em todos os entroncamentos
do Universo, guardavam
sentinelas.
Naquele portal, como poderia
ser diferente?
Assim Lilith aproximou-se
do guardião, a guisa de
permissão.
Do soldado,
emanava o poder interior
daqueles além da dor.
Disse o guardião:
"Que isto seja ouvido!
A verdadeira força vem do Amor."
O sino dobra
para este peregrino.
Chegou-lhe a hora
de conhecer além.
O homem olha
sem desdém.
"Pagou do abismo
o preço?"
Por longo tempo,
o peregrino
manteve silêncio.
— Eu caminhei
pela realidade.
Doí o peito
de saudades.
— Explorei a verdade
do coração.
— Pelas vidas, suspirei.
Sombra e luz.
— À procura da imortalidade,
espírito sem época.
Das sombras a epopéia.
— O cair das máscaras,
a morte do ego.
(mais perto do Universo?)
— Andarilho sem nome...
Sob os passos,
pedaços da alma,
choro sem lágrimas.
— Sonhos desfeitos...
A realidade em tons
cinzas, negros.
...
— É com tais tintas,
que pincelo
a luz do dia.
— Telas de sangue e dor.
E logo o calor
ao descobrir
que a escuridão está ali
a realçar a beleza da luz.
— Ah, e quão doce então
a saudade que conduz
a vontade do coração...
— Eu deslizo pelo mundo
fantasma das ilusões,
qual sombra,
mas sentindo a espiral eterna do Amor.
— Longo caminhar,
a descobrir o sopro
terno da Criação.
"Alcançaste tua compreensão."
Lilith pegou-lhe
delicada a mão.
Abra os olhos,
caçador do ego.
Não estejas mais cego:
venha volitar no além do
Universo.
O guardião
flanqueou a passagem.
Além do portal, brilhava a realidade.
Peregrino, por que a saudade?
Não vês que a paisagem do outro lado
é semelhante, qual espelho?
Ele sorriu com enlevo.
— Sim, há a saudade quieta,
dor suave e indefinível.
— Mas, no fim,
a cada timidez do descobrir,
a cada sorriso,
a cada toque de olhar,
do infinito o vislumbre,
no caminho das eras.
— A cada sentir da presença,
alegria
(palavras fazem diferença?)
†
Delicada e reverentemente,
silente do espaço ou tempo,
o coração da alma respirava.
Porque nunca haveria o nada.
†
Peregrinar
pelas vidas do Universo...
Eternidade.










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