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08 janeiro 2014

O cachorro e a raposa — final

Acompanhe a parte 1 e a parte 2.



Nos campos,
a raposa ouvia
o silêncio do dia.

Ela tremia não
para o vento,
pois apertava o vazio
de dentro.

Sozinha.

Focinho cheirando
o tronco oco.
Sombra, insetos,
ninguém por perto.

Sozinha...

O sol refletia
em sua pelagem.
Perguntava-se:
— Qual a cor da solidão?

Não a do arco-íris.
Não o brilho dos olhos
que a encontravam.

Batia sensível o peito,
mas, como sempre,
sozinha.

Embora,
à sua volta,
a paisagem cheia
de cor e flor,
sentia dor.

Pétalas balançavam
quando corria de
outros de patas:
— O que querem de mim?

Às vezes, era alcançada,
momentos dividia.
Mas, sentia-se
sempre à parte...

Afetava,
sem se afetar.

À tarde, que
palavras passavam
pelo seu olhar?


Enxergava a flor
desabrochar, mas não
voava sorrisos.

Onde o infinito?

Quando o dia a findar,
era folha flutuando
na corrente.

Sozinha, somente,
sob o murmúrio
do riacho.

Cada sono era
o não-acordar:
torpor de si.



Chuva.
O brilho do amanhacer
no lago plácido.

A raposa saboreava
o vento.
Foi nesse momento
que decidiu o rio.


Lá, quando a matilha
veio, longe do veio,
a raposa viu, escondido,
um par de olhos tristes.

Olhos cor de cachorro.
Tímidos, eles brilharam.
E sumiram.

Mesmo distante,
a árvore era floresta.

E, diante das
águas em festa,
a raposa teve que,
mais uma vez, correr.


— Mas a raposa
nunca mais o viu?
quis um filhote saber.


— Claro que sim, pequeno.
Deixe-me continuar...



Outras vezes
aqueles olhos ela viu.
Forçou, testou, tentou.
Mas eles sempre fugiam...

Depois dos olhos a brilhar,
viu bigodes se agitando,
latidos que não rugiam.

Viu a noção do movimento,
a inércia da ousadia.

Os dias e as estações a caminhar.
Folhas mudando de cor,
amarelo-perto do frio.

Logo, manteve-se perto,
mas sem tentar,
pois lá ia o cão
num abrigo se enfiar.

A raposa gostava
de estar junto,
mas junto
nunca estava.

(E o cão não sabia.)

Sozinha ou correndo, longe
rodeava, olhando o cão
a brincar e andar e correr.

Mas não podia a matilha!
Não pertencia...

E então voltava, por si,
a seus campos altos e passarinhos.


(sem saber que,
o cachorro, em silêncio,
a abraçava e a amava...)


Da colina, a raposa
passeava o olhar
sobre o campo.

Pêlos ao vento,
ondulando como
a palha dourada.

Só havia uma cor, mas
— Qual a cor da saudade?


Vontade de brincar no trigo.
Desceu, correu, afundou.

E lá, encontrou
o cachorro, escondido.

Sozinho.


Naquele momento,
faíscas do infinito.

Ao tocar mansinho
de focinhos, a verdade
dos olhos.


Porque assim,
perto, de pertinho,
refletiam-se com vontade...

O céu brilhava azul-saudade.


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