†
Nos campos,
a raposa ouvia
o silêncio do dia.
Ela tremia não
para o vento,
pois apertava o vazio
de dentro.
Sozinha.
Focinho cheirando
o tronco oco.
Sombra, insetos,
ninguém por perto.
Sozinha...
O sol refletia
em sua pelagem.
Perguntava-se:
— Qual a cor da solidão?
Não a do arco-íris.
Não o brilho dos olhos
que a encontravam.
Batia sensível o peito,
mas, como sempre,
sozinha.
Embora,
à sua volta,
a paisagem cheia
de cor e flor,
sentia dor.
Pétalas balançavam
quando corria de
outros de patas:
— O que querem de mim?
Às vezes, era alcançada,
momentos dividia.
Mas, sentia-se
sempre à parte...
Afetava,
sem se afetar.
À tarde, que
palavras passavam
pelo seu olhar?
Enxergava a flor
desabrochar, mas não
voava sorrisos.
Onde o infinito?
Quando o dia a findar,
era folha flutuando
na corrente.
Sozinha, somente,
sob o murmúrio
do riacho.
Cada sono era
o não-acordar:
torpor de si.
†
Chuva.
O brilho do amanhacer
no lago plácido.
A raposa saboreava
o vento.
Foi nesse momento
que decidiu o rio.
Lá, quando a matilha
veio, longe do veio,
a raposa viu, escondido,
um par de olhos tristes.
Olhos cor de cachorro.
Tímidos, eles brilharam.
E sumiram.
Mesmo distante,
a árvore era floresta.
E, diante das
águas em festa,
a raposa teve que,
mais uma vez, correr.
†
— Mas a raposa
nunca mais o viu?
quis um filhote saber.
— Claro que sim, pequeno.
Deixe-me continuar...
†
Outras vezes
aqueles olhos ela viu.
aqueles olhos ela viu.
Forçou, testou, tentou.
Mas eles sempre fugiam...
Depois dos olhos a brilhar,
viu bigodes se agitando,
latidos que não rugiam.
Viu a noção do movimento,
a inércia da ousadia.
Os dias e as estações a caminhar.
Folhas mudando de cor,
amarelo-perto do frio.
Logo, manteve-se perto,
mas sem tentar,
pois lá ia o cão
num abrigo se enfiar.
A raposa gostava
de estar junto,
mas junto
nunca estava.
(E o cão não sabia.)
Sozinha ou correndo, longe
rodeava, olhando o cão
a brincar e andar e correr.
Mas não podia a matilha!
Não pertencia...
E então voltava, por si,
a seus campos altos e passarinhos.
(sem saber que,
o cachorro, em silêncio,
a abraçava e a amava...)
†
Da colina, a raposa
passeava o olhar
sobre o campo.
Pêlos ao vento,
ondulando como
a palha dourada.
Só havia uma cor, mas
— Qual a cor da saudade?
Vontade de brincar no trigo.
Desceu, correu, afundou.
E lá, encontrou
o cachorro, escondido.
Sozinho.
Naquele momento,
faíscas do infinito.
Ao tocar mansinho
de focinhos, a verdade
dos olhos.
Porque assim,
perto, de pertinho,
refletiam-se com vontade...
O céu brilhava azul-saudade.


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