Longe da casa do velho.
Sozinho sob as árvores, o peregrino ressonava, abrigado em uma delas, velha como as eras.
Ainda escuro quando abriu os olhos. Espalmou a mão para que um floco de neve pousasse.
— Estranho: a floresta não era branca antes do sono.
Um calafrio a cada passo, o horizonte nunca o fim.
Sem destino que não a morte, triste terminar assim.
Sem norte, sozinho no caminho, o peregrino soprou névoa nas mãos, ajeitou o capuz.
Foi quando ergueu a cabeça e seus olhos voaram para um reflexo de luz.
A floresta não era branca antes do sono.
Mas lá, sob a lua, estava o lobo, e um pássaro.
E uma mulher.
— Viajante eterno, venha a mim — lábios imóveis, falava com a voz do vento.
Para ele, soava como uma melodia fantasma, um convite da morte de uma fada do gelo. Antes de andar:
— Quem é você?
— O que você vê. Por que saber?
O peregrino deteve-se então em seus olhos. E como eram calmos e profundos... pareciam sondar o infinito, as estrelas da noite.
Ficou fascinado.
— É uma fada?
— Sou uma alma — ao mesmo tempo que afagava o lobo sentado. O pássaro um enfeite de ombro.
Ele se lembrou da promessa da Francesa, a de que almas iriam lhe encontrar para dividir passados. Ficou quieto.
— Ouça, errante. Nas histórias de certas almas, surgem outras, que lhes emprestam o sentido de uma única história e a fazem sentir a eternidade do instante.
Ela deixou que o andarilho explorasse seu silêncio antes de perguntar:
— Por que deseja encontrar uma sereia?
— Um velho me disse — tudo o que pôde responder. — E você, o que deseja me contar?
A boneca de neve sorriu, e convidou delicada em gestos.
A palavra suave ecoou na mente do peregrino.
— Venha até mim. Deixe-me explorar o seu silêncio.
À medida que ele se aproximava, o frio aumentava.
Primeiro, um calafrio; depois, sacudindo-se sem querer. Mais perto, esperava parar de sentir, tornar-se o universo nos braços dela.
Por um momento, só havia um destino, sua simples presença um carinho.
Súbito, veio a imagem do portal.
Ferido pela própria compreensão, a despeito de todo frio, ao olhar para ela, sussurrou:
— Não é o meu caminho.
Os flocos de neve continuavam a cair, doando-se para serem pisados.
A alma agarrou-lhe os braços, e ele sentiu uma força primitiva. Mas não havia ira em seu toque, que certamente doía.
Errara ao sentido que dera ao olhar, calmo e profundo. Era um olhar congelado, vazio.
Era o que estava — uma alma congelada.
Tremia, mas agora não de frio: seu coração carcomia-se de uma saudade inexplicável.
Afastou-se querendo afundar-se em si.
Não a viu sumir, mas o lobo ainda pateava ali.
Um bote, e escuro.
†
O peregrino arregalou-se, engasgando no medo.
Sem neve em seu meio. Apenas a noite e as árvores eternas.
Entendeu.
— Era um sonho — e respirou aliviado.
Ao longe, o uivo dum lobo terminou de acordá-lo. O vento ainda cantava sua música silenciosa, espantando um pássaro num galho.
Viajante eterno,
peregrino do universo,
qual o caminho do Infinito?
É o caminho do coração,
errante do destino:
ter fé é acreditar com o coração.

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