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01 julho 2013

Histórias das almas: a fada, o lobo e o gelo


Longe da casa do velho.

Sozinho sob as árvores, o peregrino ressonava, abrigado em uma delas, velha como as eras.

Ainda escuro quando abriu os olhos. Espalmou a mão para que um floco de neve pousasse.

— Estranho: a floresta não era branca antes do sono.

Um calafrio a cada passo, o horizonte nunca o fim.

Sem destino que não a morte, triste terminar assim.

Sem norte, sozinho no caminho, o peregrino soprou névoa nas mãos, ajeitou o capuz.

Foi quando ergueu a cabeça e seus olhos voaram para um reflexo de luz.

A floresta não era branca antes do sono.

Mas lá, sob a lua, estava o lobo, e um pássaro.

E uma mulher.


— Viajante eterno, venha a mim — lábios imóveis, falava com a voz do vento.

Para ele, soava como uma melodia fantasma, um convite da morte de uma fada do gelo. Antes de andar:

— Quem é você?

— O que você vê. Por que saber?

O peregrino deteve-se então em seus olhos. E como eram calmos e profundos... pareciam sondar o infinito, as estrelas da noite.

Ficou fascinado.

— É uma fada?

— Sou uma alma — ao mesmo tempo que afagava o lobo sentado. O pássaro um enfeite de ombro.

Ele se lembrou da promessa da Francesa, a de que almas iriam lhe encontrar para dividir passados. Ficou quieto.

— Ouça, errante. Nas histórias de certas almas, surgem outras, que lhes emprestam o sentido de uma única história e a fazem sentir a eternidade do instante.

Ela deixou que o andarilho explorasse seu silêncio antes de perguntar:

— Por que deseja encontrar uma sereia?

— Um velho me disse — tudo o que pôde responder. — E você, o que deseja me contar?

A boneca de neve sorriu, e convidou delicada em gestos.

A palavra suave ecoou na mente do peregrino.

— Venha até mim. Deixe-me explorar o seu silêncio.

À medida que ele se aproximava, o frio aumentava.

Primeiro, um calafrio; depois, sacudindo-se sem querer. Mais perto, esperava parar de sentir, tornar-se o universo nos braços dela.

Por um momento, só havia um destino, sua simples presença um carinho.

Súbito, veio a imagem do portal.


Ferido pela própria compreensão, a despeito de todo frio, ao olhar para ela, sussurrou:

— Não é o meu caminho.

Os flocos de neve continuavam a cair, doando-se para serem pisados.

A alma agarrou-lhe os braços, e ele sentiu uma força primitiva. Mas não havia ira em seu toque, que certamente doía.

Errara ao sentido que dera ao olhar, calmo e profundo. Era um olhar congelado, vazio.

Era o que estava — uma alma congelada.

Tremia, mas agora não de frio: seu coração carcomia-se de uma saudade inexplicável.

Afastou-se querendo afundar-se em si.

Não a viu sumir, mas o lobo ainda pateava ali.

Um bote, e escuro.


O peregrino arregalou-se, engasgando no medo.

Sem neve em seu meio. Apenas a noite e as árvores eternas.

Entendeu.

— Era um sonho — e respirou aliviado.

Ao longe, o uivo dum lobo terminou de acordá-lo. O vento ainda cantava sua música silenciosa, espantando um pássaro num galho.

Viajante eterno,
peregrino do universo,
qual o caminho do Infinito?
É o caminho do coração,
errante do destino:
ter fé é acreditar com o coração.

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