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18 julho 2013

Escriba: Virgem Astréia, deusa-poeta do velho mundo



No cansaço profundo do mundo, o peregrino não queria pra cima olhar.

Ainda noite, as estrelas continuavam a brilhar.

Silêncio, mas não de meditação, pois, após a fada, nada.

Interrogação sem palavras.

Sonho perdido, coração sem vontade de seguir o caminho.

Ainda noite, as estrelas continuavam a brilhar.

Não havia fé, porém abismo, o destino escuro.

Cansaço profundo do mundo. Suspirou o peregrino:

— Todos os lugares iguais.

Súbito, o céu dançou visões e, dos rincões, veio algo.

Era Hefesto, o artista celeste do velho mundo.

E o errante, no próprio fundo, sentiu-se não mais distante, mas:

— Não sou digno.

Em sua mente, a história do deus coxo: enjeitado pelas divindades, caído dos salões celestiais. Deus feito carne, sua queda era a queda da humanidade.

Quando ele principiou a falar, quase um murmúrio:

— O mundo em que me expressava não existe mais. Minha religião, extinta. Onde havia teologia e metafísica, hoje há literatura. Mas também muita sombra nos caminhos.

O peregrino, cabeça baixa, refletia em seu próprio escuro.

— Hefesto, glória e honra das Artes, eu lhe peço. Guie-me pelo caminho das palavras, os sons da alma. Clemência.

— Não me cabe esta incumbência. Minha luz é o fogo. Minha arte é o martelo, o ferro, a bigorna. Mas não se turve, ó caminhante do infinito.

— Como então adornarei meu passos?

— Tal sonhar da mente não cabe tão somente ao homem.

— Diga-me, pois: há, entre os entes, algum luminar a me guiar?

Hefesto então ergueu o olhar.

Ainda noite, as estrelas continuavam a brilhar.

Cada qual uma deusa esquecida.

Ele chorou quando viu Vênus, mãe da beleza.

Seguia-lhe um cortejo especial. O anoitecer orvalhado refletiu a dança das musas, cortesãs das artes: Calíope, Clio, Euterpe, Melpômene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia, Talia, cada qual luz e virtude.

Havia também Pandora, e a esperança do errante — a mesma da caixa de Epimeteu, o mago titã — acendeu qual chama.

— Ali — apontou Hefesto.

Longe, um cometa volitou no firmamento; flertou com a lua.

Poeira estelar voou — raios de chuva pingando perto, mais perto...

Por um momento, o peregrino sentiu a fonte de Universo.

E o caminho do coração lhe revelou Astréia, finalmente.


Pensou que sua mente lhe pregava uma peça.

Hefesto:

— Eis Astréia, que assiste o mundo em sua constelação de Virgem. Filha da Justiça, Senhora da inocência e pureza, a última a abandonar a humanidade, durante a Idade do Ferro antiga. Ela conhece as vicissitudes.

Ante a resposta dos céus, o peregrino, emocionado, ajoelhou-se:

— Astréia, das estrelas poeta, deusa do velho mundo. Honra e flor das artes, verdade e poesia, ofereço minha pena.

Ante o exagero, Hefesto sorriu uma brincadeira para Astréia, e se esvaeceu em faíscas.

Quando ela principiou a falar, luz de constelação deixou seu sorriso para acariciar a alma do peregrino.

— Levanta-te. Ensinar-lhe-ei a Beleza pelas letras, mas não por minha carne e sangue.

Sentou-se ao seu lado, e os dois, sob a chuva, olhavam a dança das musas. Sua voz soava paz:

— O caminho da Beleza é o Caminho do Coração. Em sua andança, porém, irá, verá e escreverá sombras, tendo por companhia o amor e a dor, lembranças que murcham, rostos que sorriem mármore.

— Mas queime o incenso de sua alma, mergulhe a pena na tinta das estrelas, escreva seu poema no fluxo da existência. Ame com a força da terra, aceite sua sombra.

Tendo dito isso, e antes que ele pudesse se virar, a deusa transformou-se novamente em luz e cometa. O rastro de vaga-lumes logo voltou a ser escuridão.


Ainda sentado, o peregrino e a chuva, entre a mentira do mundo e a poesia.

Calor de prazer refinado, pois, desta vez, o olhar brilhava.

Ele ansiava pelos mistérios do mundo que, no final, era o universo.

— Todos os lugares iguais...


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