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01 agosto 2013

A sereia do abismo

A aurora derramava luz de ouro.

O calor-frio da manhã, o despertar do vindouro.

Depois da divindade, o peregrino com saudade.

Orvalho na pétala
deslizando a manhã;
silêncio no beija-flor.

Vontade de poesia, mas o sol exigia silêncio.

Porque mesmo a Via Láctea, dos deuses o caminho, por momentos sumia aos raios do dia.

O errante queria voar, mas ainda não a sua via.

Porque havia seu interior.

Seguiu caminho, somente dos passos o rumor.

Murchas folhas, filhas da última árvore, deram-lhe adeus.

E, da floresta, o peregrino percebeu:

— Tudo o que vejo é parte de mim.

À frente, o rio sem fim.


Palavras do ancião da casa abandonada:

"Lá, mora uma sereia. Todos os dias eu desejo encontrá-la e ficar junto dela... mas não sei nadar."

— Eu sei.

Despido, sem medo do perigo, pisou na margem.

A água era agradável ao toque. O que lhe aguardava aquela viagem?

Debaixo, a luz atingia até certo ponto. Depois, escuro, um outro mundo.

Descendo.

Descendo.

Descendo...


No fundo, frio e solidão. Abandono.

Não havia noite e estrelas, deuses, poesia e cometas. 

Somente o desespero das distâncias.

Quais mistérios guardavam-lhe os abismos?

Lembranças de amores, sorrisos resignados.

Santuários de lágrimas. Indiferenças, espíritos alquebrados.

Fantasmas de si mesmos, o passado em fluxos sem reflexo nas águas escuras.

Tanta luta...

A paz das águas que lhe eram mar diziam para não mais nadar.

Onde os deuses, ou a luz de si mesmo?

Profundidade demais para chegarem ali.

Logo, o pensamento do peregrino foi assaltado:

"Os deuses não chegam aqui."

As águas continuavam seu fluxo perene.

Mas o sentimento delas causavam as mesmas sensações no corpo inteiro.

Nada permanecia imóvel: tudo o que o peregrino não via, elementos fugazes de momentos.

Não lhe pediam que respirasse, porque ele já fazia parte há tempos.

Comunhão delicada e reverente.

Então, de repente, uma luz. Sentiu que não estava sozinho.

Olhos vagos de decisão e angústia para adiante.

Porque, não muito distante, a sereia voluteava.


Mesmo ali, a voz do peregrino conseguiu:

— É um sonho?

— Por que veio em meu reino, homem tristonho?

— Afundei a desejo de um velho.

— Pagou o pedágio de dor?

— As águas escuras retiraram-me do coração o calor.

Uma gargalhada molhada. Aparência de criatura, mas sua voz era pura.

— Acha então que no fundo só há trevas?

— Todos os lugares são iguais — lembrou-se o peregrino.

— As estrelas lhe ensinaram, mas sua visão ainda está pequena.

— Não há luz sob as águas. E elas me revelaram o escondido.

— Assim são os abismos — deu de ombros a sereia. — Nas margens da vida, adeuses, abraços, olhares calados. As águas refletem a luz.

— À medida que se afasta, tempestades, saudades, corações endurecidos. Céus cinzentos. As velas velejam entre as terras, mas sempre acima do mistério das profundidades, porque "não há luz". Nos lugares mais escuros, a manhã do céu, o orvalho e o beija-flor são apenas lembranças de um eterno terminar.

— Ninguém quer afundar — respondeu o peregrino, como se dissesse o óbvio.

— Mas muitos anseiam pelos lábios da sereia. E, ironia, desejam com o coração.

Continou:

— Ouça, peregrino. A pressão que se sente na escuridão vem justamente do coração. Mas ele é o seu submarino, e nunca âncora, para os caminhos da profundidade.

— Sinto algo que só posso definir como saudades — ele suspirou. — Eu vi um portal, um velho esquecido e sonhador, deusas e estrelas. Como então iluminar meu caminho?

— Se ainda é apenas escuridão o que vê, espere. Feche os olhos.

A sereia passou lentamente a mão espalmada. As águas obedeceram-lhe em carinho, e o peregrino contemplou-a em sua forma de harmonia e realeza.


— As estrelas são sua companhia. Elas são o caminho. Os perigos e mistérios estão em si. Navegue em força e luz, que são o coração. E o cosmo é infinito, peregrino.

— Tudo o que vejo é parte de mim — sorriu o errante.

— Agora, volte a superfície.


Na superfície, o céu e o rio eram um só.

Sem solidão, a relva em seu apogeu.

Um calor reconfortante, o peregrino percebeu que, mesmo com a incerteza de seu destino, aquele abismo sempre seria uma lembrança.

— Tudo o que vejo é parte de mim.

Um beija-flor apareceu, voejando veloz, batendo as asas de alegria para a sua vida à frente.

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