O errante no deserto, sozinho consigo.
De repente, encontra algo, distante, lá longe:
— O que é aquilo?
Levanta a cabeça o peregrino e segue adiante.
Já era tarde quando chegou perto. Ao pousar a mão:
— Cerca viva.
Espinho,
— Ai!, gota de sangue no chão.
Alto, quase não dava pra ver, impossível escalar.
Muro e palácio.
Viu uma grade de ferro:
— A entrada! — mas fechada.
— Onde a chave de tal lugar?
— Não há — veio a voz do muro, a sussurrar.
— Então como posso entrar?
— Não pode. Move-te, peregrino.
— Não sou inimigo.
— Tampouco é amigo.
— Estou sozinho.
— Não pode. Move-te.
— Estou cansado. Ao menos posso ficar ao lado?
— Não me importa o teu fardo.
No deserto, o crepúsculo trazia a corrente de frio.
— Aqui fora dos muros, o vento sopra diferente.
— Faça como os outros viajantes: aprenda a ficar contente.
Indignou-se o peregrino então:
— Como a felicidade em tal solidão?
Um sorriso no guardião.
— Tolo. Sua companhia é a gratidão dos caminhos. A serenidade na viagem. Cada passo, uma prece aos ventos. Não me pranteie lamentos.
— Ainda quero entrar — e raiva ao puxar as grades.
— Aprofunde seu espírito. Este jardim é para aqueles que aprenderam segredos e —
— E a viagem de meu degredo ainda não permite a entrada — completou com enfado o errante.
Mas não desistiu:
— Abra as portas, para que ao menos a essência do jardim se espalhe pelas areias.
— Não é necessário. Mesmo no deserto, o cacto solitário emite sua fragrância.
Inútil tentar. Restavam somente as longínquas distâncias de um entardecer.
E o peregrino disse adeus, contrariado em seu bem-querer.
Nas estrelas da noite, Astréia, serena, olhava para o protegido.
E soprou, em pensamento:
"Criança dos caminhos, apesar do andarilho dentro de vós, sempre distante e sozinho, mantenha o olhar sereno e profundo, tal como o marinheiro, no mundo sem descanso que é o mar.
Nas areias, também sopra a intimidade com o obscuro de si. Tal imensidão não guarda por muito tempo pegadas.
Suas memórias dançam como o vento — ele sim conta as vidas dos que vieram."
Depois da mensagem, ele apenas guardou silêncio, sentindo diferentes impressões no caminhar... suspeitou, talvez a paz do lobo do mar.
Das estrelas, Astréia, deusa da constelação de Virgem, compadeceu-se.
Seu beijo veio, devagar, do infinito, até parar nos lábios do peregrino.


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