Páginas

26 agosto 2013

Histórias das almas: a praia dos guerreiros

Naquela noite, o espírito do peregrino volitou novamente.

Cada sol, um grão no deserto do escuro.

No fundo da paisagem, alguém no caminho. Homem e cavalo.

Brilho ofuscado por um velho manto sujo, que não caía frágil.

E uma espada pendurada do lado.

Um guerreiro, talvez.

À medida que se aproximava, abaixou o capuz. A testa brilhava de lua quando a levantou. Os olhos também brilhavam, calmos. Calma era a fronte... e um sorriso no canto da boca.


— Só há um Senhor sobre o mundo, o Supremo Comandante dos Exércitos — disse, a fisionomia à vontade nas sombras. — Sou o seu profeta.

O peregrino viu então que era uma batina — ele era da guerra.

Resolveu encará-lo, mesmo sabendo que os padres-soldados tinham o costume de, de repente, achar que eram olhados diferente, e resolver as coisas sempre no aço.

— Alguma vez já ouviu as imagens e sons da montanha? São avisos que cheiram a sangue.

Mas, mesmo distante, ainda e somente havia o deserto.

— Onde o vale da morte — quis saber o peregrino.

— Além, muito além dos seus caminhos de luz, cordeiro. Ali, apenas a luta triunfa. Eu lutei e, vitória, agora volto para o lar — mais riso.

— Entendo que Ares está na alma de cada guerreiro, mas onde a verdade do combate?

— Dever. Eu luto, somente.

— Altruísmo, a proteção do mais "fraco" — arriscou o peregrino.

— Sim.

— Vaidade?

— Você não diz a verdade — respondeu, deixando de sorrir.

— Então por que ergue a espada?

O guerreiro deu de ombros:

— Honra, glória, a proteção do cordeiro. Lutar junto de outros companheiros.

— Irmãos no infortúnio — pensou em voz alta o peregrino.

— Mais um que acredita ensinar moral?

— Não me leve a mal.

— Você não conhece o silêncio que precede a violência. A névoa vermelha.

O peregrino fechou os olhos.

E lá estavam imagens de alguns passados:

Flechas disparadas junto com Genghis Khan.

Sobre uma colina, a fumaça dos mosquetes de Napoleão, e um grito de "não!" ao sentir novamente o medo e terror.

Nas trincheiras da Grande Guerra, sob a artilharia, avanço com furor.

E a mudança do mundo, quando dos nazistas o horror.

— Errado. Eu conheço o abismo — sussurrou o peregrino.

— Saia do meu caminho.

— Não. Vamos, guerreiro, qual a verdade do combate?

Com ódio veio a resposta:

— Pergunte pro Ares!

E o peregrino suspirou, deixando-o ir.

Porque sabia que, para o lar, aquela alma não voltaria.

O guerreiro, não mais um vivente, atravessaria seu próprio deserto.

Não sobrepujaria sua própria dor, não ascenderia sua natureza.

Nunca a paz. O peso da angústia nos ombros, as vidas que ceifara.

Depois das areias, um lago, mas sem sereia.

Águas negras e ferventes.

O Estige dos vencidos pela ira.

Nas margens das águas borbulhantes, outros o aguardariam, armas na mão.

Eles bradariam: "bem-vindo, irmão".

E continuariam o eterno combate.


Por um momento, o sangue do peregrino ferveu de vontade e propósito.

— A tensão à espera do inimigo... Talvez seja isto.

À sua frente, solidão solar e silêncio. O horizonte escuro.

Ergueu então o olhar para as estrelas, o caminho infinito.

E sorriu para um cometa.



Nenhum comentário:

Postar um comentário