Naquela noite, o espírito do peregrino volitou novamente.
Cada sol, um grão no deserto do escuro.
No fundo da paisagem, alguém no caminho. Homem e cavalo.
Brilho ofuscado por um velho manto sujo, que não caía frágil.
E uma espada pendurada do lado.
Um guerreiro, talvez.
À medida que se aproximava, abaixou o capuz. A testa brilhava de lua quando a levantou. Os olhos também brilhavam, calmos. Calma era a fronte... e um sorriso no canto da boca.
— Só há um Senhor sobre o mundo, o Supremo Comandante dos Exércitos — disse, a fisionomia à vontade nas sombras. — Sou o seu profeta.
O peregrino viu então que era uma batina — ele era da guerra.
Resolveu encará-lo, mesmo sabendo que os padres-soldados tinham o costume de, de repente, achar que eram olhados diferente, e resolver as coisas sempre no aço.
— Alguma vez já ouviu as imagens e sons da montanha? São avisos que cheiram a sangue.
Mas, mesmo distante, ainda e somente havia o deserto.
— Onde o vale da morte — quis saber o peregrino.
— Além, muito além dos seus caminhos de luz, cordeiro. Ali, apenas a luta triunfa. Eu lutei e, vitória, agora volto para o lar — mais riso.
— Entendo que Ares está na alma de cada guerreiro, mas onde a verdade do combate?
— Dever. Eu luto, somente.
— Altruísmo, a proteção do mais "fraco" — arriscou o peregrino.
— Sim.
— Vaidade?
— Você não diz a verdade — respondeu, deixando de sorrir.
— Então por que ergue a espada?
O guerreiro deu de ombros:
— Honra, glória, a proteção do cordeiro. Lutar junto de outros companheiros.
— Irmãos no infortúnio — pensou em voz alta o peregrino.
— Mais um que acredita ensinar moral?
— Não me leve a mal.
— Você não conhece o silêncio que precede a violência. A névoa vermelha.
O peregrino fechou os olhos.
E lá estavam imagens de alguns passados:
Flechas disparadas junto com Genghis Khan.
Sobre uma colina, a fumaça dos mosquetes de Napoleão, e um grito de "não!" ao sentir novamente o medo e terror.
Nas trincheiras da Grande Guerra, sob a artilharia, avanço com furor.
E a mudança do mundo, quando dos nazistas o horror.
— Errado. Eu conheço o abismo — sussurrou o peregrino.
— Saia do meu caminho.
— Não. Vamos, guerreiro, qual a verdade do combate?
Com ódio veio a resposta:
— Pergunte pro Ares!
E o peregrino suspirou, deixando-o ir.
Porque sabia que, para o lar, aquela alma não voltaria.
O guerreiro, não mais um vivente, atravessaria seu próprio deserto.
Não sobrepujaria sua própria dor, não ascenderia sua natureza.
Nunca a paz. O peso da angústia nos ombros, as vidas que ceifara.
Depois das areias, um lago, mas sem sereia.
Águas negras e ferventes.
O Estige dos vencidos pela ira.
Nas margens das águas borbulhantes, outros o aguardariam, armas na mão.
Eles bradariam: "bem-vindo, irmão".
E continuariam o eterno combate.
Por um momento, o sangue do peregrino ferveu de vontade e propósito.
— A tensão à espera do inimigo... Talvez seja isto.
À sua frente, solidão solar e silêncio. O horizonte escuro.
Ergueu então o olhar para as estrelas, o caminho infinito.
E sorriu para um cometa.


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