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18 dezembro 2013

A última trincheira


Meu corpo dói.
Sim, os anos passaram.
E eu, deitado,
contemplo o teto,
perto do fim.

De todas as lembranças,
como queria
poder falar de amor.
mas, no fim da vida,
dói-me mais a própria
dor.

E, dentre todas elas,
eu me lembro da guerra.


Merda e morte...
e sorte.

A sorte do tolo,
todos iguais na dor.
O calor da granada, do fogo
dos fuzis o estertor.

Eu me lembro do céu.
Sempre cinzento e
ferrugem e fumaça.
Nunca o sol...
O céu com a cor da dor.

Nas sombras da trincheira,
não há caminhada sobranceira.
Velhos camaradas,
rostos com cheiro de morte,
terra, farda.

Sem alegrias, apenas
da vida o fardo.
Empedernidos, frágeis.
Exaustos, tristes.

Homens sem nome.
O mundo reduzido a sacos
de areia e arame farpado.


— Abaixe a cabeça, soldado!
Raiva de tudo e de todos.
Os dias pesados, sofridos,
insuportáveis, longos...

Eu me lembro do longo silvo
da artilharia, "a rainha das armas".
Queria o ruído distante,
mas logo o assobio,
e o encolher das almas.

Alto demais —
medo! —
explosão!
E a cratera da morte.

Tosses, gemidos.
Eu suo frio,
tremo para o fedor
de merda e lama.

Da vela a chama,
a vida pelas sujas
lentes dos binóculos.

A ordem vem logo:
— Armar-baioneta!
E então o arrepio de calor,
expectativa assassina.

Na vida, apenas um caminho:
o mundo da terra-de-ninguém.
E sempre há alguém
para lutar.

O capitão olha para o relógio
e para os homens no ócio
antes do silvo macabro.

E eu, deitado,
contemplo o teto,
perto do fim.

Olhos sem esperança,
olhos de sangue e coragem,
a lama em lavagem,
a linha do abatedouro.

Mexo-me na cama,
desespero sem glória.
O apito soa:
— Avançem!
Apenas memórias.

— Boa sorte!
E lá se foi,
no escorregar-subir,
o companheiro,
abençoado na batalha,
amaldiçoado na vida.


O tiro do fuzil é a hóstia
da comunhão.
Os homens na procissão
da glória.
E, na escória dos sentimentos,
o momento da morte.


Deitado, olho a janela.
Ainda cedo.

Foi-se o medo.
Resta apenas a foice
da derradeira sorte.

— Soldado,
estou do seu lado,
vim te buscar. Outro
descampado o aguarda.

— Mas, guarda do além,
irei sozinho?
Onde a mochila, o fuzil,
a ordem de
"Avante, infante"?

— Olhe para a janela,
novamente.

Obedeci.
Brilhava a manhã.

E ali, diante do antes,
as cruzes enfileiradas
saudavam
a luz da manhã.


Eu me lembro de uma manhã em particular,
uma manhã quando o sol apareceu,
dissipando o breu de
tanta dor... tanta dor...

Para o calor
quis os olhos fechar,
e sentir, lembrar
a cor da vida.

E, mesmo quando suspirava,
a simples visão do sol me fez sorrir...



Um comentário:

  1. Gostei a descrição te faz sentir o cenário e as emoções de uma das coisas mais ediôndas da terra : a Guerra ...

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